Quando se fala nos efeitos gastrointestinais das chamadas canetas emagrecedoras, náusea, vômito e diarreia costumam aparecer entre as queixas mais conhecidas. Mas existe outro problema intestinal associado ao tratamento que, em alguns pacientes, pode abrir caminho para uma complicação bastante dolorosa: a constipação.Quando a prisão de ventre leva à formação de fezes muito ressecadas e exige esforço excessivo para evacuar, uma das possíveis consequências é a fissura anal. E, se a lesão se torna crônica e não responde ao tratamento convencional, uma das opções pode envolver algo que muita gente associa apenas à estética: a toxina botulínica, o popular botox.A constipação associada a essas medicações não é apenas uma observação dos consultórios. Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2025 no International Journal of Obesity reuniu 39 estudos, com 33.354 pessoas com sobrepeso ou obesidade sem diabetes, e identificou a constipação entre os efeitos gastrointestinais mais comuns. Na análise dos estudos sobre esse sintoma, semaglutida, liraglutida e tirzepatida apresentaram aumento significativo do risco de constipação.A Dra. Lorena Willers Coutinho, coloproctologista, cirurgiã-geral e cirurgiã do aparelho digestivo, explica que essas medicações podem interferir na motilidade gastrointestinal. Com o trânsito intestinal mais lento, as fezes permanecem por mais tempo no cólon, onde ocorre absorção de água, podendo se tornar mais secas e endurecidas.Segundo a especialista, ainda não é possível estabelecer com precisão quais pacientes podem desenvolver o problema. Pessoas que já apresentavam intestino mais lento, baixa ingestão habitual de água ou alterações prévias da musculatura pélvica, porém, podem ser mais suscetíveis.A mudança do hábito intestinal durante o tratamento não deve ser simplesmente ignorada. A Dra. Lorena explica que ficar mais de três dias sem evacuar já merece atenção, especialmente quando representa uma mudança súbita no padrão habitual. Dor abdominal forte ou persistente, distensão abdominal importante, náuseas e vômitos associados à incapacidade de evacuar ou eliminar gases, sangramento, dor na região anal ou sensação de bloqueio também exigem avaliação médica.E é justamente quando as fezes ficam muito ressecadas que pode surgir a fissura.“A fissura anal instala-se por traumatismo mecânico: a passagem de fezes de grande calibre e ressecadas (ou diarreia explosiva) provoca uma laceração no canal do ânus”, explica a Dra. Lorena.Os principais sintomas são dor intensa durante ou após a evacuação e sangramento vermelho vivo.Mas existe uma diferença importante entre o que a ciência já demonstrou e o que vem sendo observado nos consultórios. Embora a constipação esteja documentada como efeito adverso dessas medicações, ainda não existem estudos robustos que tenham quantificado especificamente o risco de fissura anal entre seus usuários.“Atualmente, trata-se principalmente de uma observação clínica relatada por muitos coloproctologistas. Se formos olhar rigorosamente para a literatura científica, há uma evidência científica insuficiente na forma de ensaios clínicos robustos desenhados especificamente para quantificar a taxa de fissuras anais causadas diretamente por análogos de GLP-1.”A relação, portanto, seria indireta: a medicação pode favorecer a constipação; as fezes podem ficar mais ressecadas; e a passagem desse bolo fecal endurecido pode provocar o trauma responsável pela fissura.A prevenção passa principalmente por cuidar do funcionamento intestinal desde o início do tratamento. Hidratação adequada, introdução gradual de fibras e não ignorar a vontade de evacuar estão entre as orientações da especialista. O uso de laxantes, por outro lado, deve ser feito com orientação profissional.Se a fissura aparecer, isso não significa que o paciente precisará de botox. Segundo a Dra. Lorena, a maioria das fissuras agudas responde ao tratamento clínico, que envolve corrigir a consistência das fezes e pode incluir banhos de assento e medicamentos tópicos.A toxina botulínica pode ser considerada quando a fissura se torna crônica, geralmente após seis a oito semanas, ou quando há falha ou intolerância ao tratamento clínico.Quando existe uma fissura, a dor pode provocar uma contração persistente do esfíncter anal. Esse espasmo aumenta a pressão na região e prejudica o fluxo sanguíneo necessário para a cicatrização.“O papel da toxina botulínica é provocar um relaxamento. Com o músculo relaxado, o sangue volta a circular normalmente na região e a fissura consegue cicatrizar”, explica a médica.O chamado “botox anal” é aplicado diretamente na musculatura do esfíncter. O efeito é temporário e, segundo a Dra. Lorena costuma durar de três a quatro meses, período que pode permitir a cicatrização da fissura enquanto a causa do trauma também é controlada.A toxina botulínica é reconhecida em diretrizes internacionais como uma das possibilidades de tratamento para fissuras anais crônicas. Como qualquer procedimento médico, porém, não é isenta de riscos. Entre os possíveis efeitos adversos está a alteração temporária do controle de gases ou fezes, por isso a indicação precisa ser individualizada.A mensagem não é que usar uma caneta emagrecedora levará alguém a precisar de “botox anal”. A constipação é um efeito adverso conhecido dessas medicações, enquanto a fissura é uma possível consequência das fezes ressecadas e do trauma durante a evacuação.Por isso, se o funcionamento do intestino mudou depois do início do tratamento, especialmente se você passou a ter dificuldade para evacuar, dor ou sangramento, não deixe o constrangimento impedir uma conversa com o médico.No tratamento da obesidade, nenhum sintoma deve virar tabu.✅Para saber tudo do mundo dos famosos, siga o canal de entretenimento do R7, o portal de notícias da Record, no WhatsApp














