Embora as tensões entre a Geórgia e a Rússia já existissem há vários anos — e se tenham intensificado após a Revolução Rosa —, uma crise diplomática internacional agravou-se na primavera de 2008. Este agravamento ocorreu, em particular, após a Rússia ter anunciado, em resposta ao precedente da independência do Kosovo e ao seu reconhecimento por países ocidentais, que deixaria de participar nas sanções económicas da Comunidade dos Estados Independentes impostas à Abecásia em 1996, passando também a estabelecer relações diretas com as autoridades separatistas da Abecásia e da Ossétia do Sul. A crise esteve ainda associada às tentativas da Geórgia de obter um Plano de Ação para a Adesão à NATO na cimeira da NATO em Bucareste de 2008. Até ao final de junho, grande parte do conflito entre a Rússia e a Geórgia concentrou-se na Abecásia, assim como os esforços georgianos e internacionais de negociação de um acordo de paz. No início de julho, o foco do conflito deslocou-se para a Ossétia do Sul, onde os confrontos entre milícias ossetas e tropas georgianas se tornaram letais a 3 de julho, na sequência de uma tentativa de assassinato do presidente pró-georgiano da Ossétia do Sul, Dmitri Sanakoiev. O conflito acabaria por conduzir a uma invasão em grande escala da Geórgia pela Rússia.
Prelúdio do conflito: escalada de tensões e incidentes
Aproximação da Rússia às regiões separatistas da Geórgia Em 14 de fevereiro de 2008, o Presidente da Rússia Vladimir Putin declarou que a Rússia tinha preparado «medidas de contingência» para o caso do Kosovo declarar a sua independência e que reagiria em conformidade. O Presidente da Duma Estatal Boris Gryzlov declarou, durante uma reunião com os presidentes da Abecásia e da Ossétia do Sul em fevereiro de 2008, que a Rússia deveria «reformular as suas relações com as repúblicas autoproclamadas». A Duma Estatal convocou uma sessão para 13 de março destinada a discutir a questão do reconhecimento das repúblicas não reconhecidas da antiga União Soviética. Tanto a Abecásia como a Ossétia do Sul apresentaram pedidos formais à Rússia para o reconhecimento da sua independência e à comunidade internacional. Ambas invocaram como precedente o reconhecimento do Kosovo. Em 26 de fevereiro de 2008, a Bélgica e a Alemanha questionaram, na cimeira do Plano de Ação de Parceria Individual da NATO, se a Geórgia estava a agir de forma «conciliadora» em relação aos separatistas, em contraste com o apoio total dos países da Europa de Leste à concessão de um Plano de Ação para a Adesão à Geórgia. Em 26 de fevereiro de 2008, o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Geórgia enviou uma nota diplomática a Viatcheslav Kovalenko, embaixador da Rússia na Geórgia, pelo facto de a eleição presidencial russa de 2008 se realizar na Abecásia e na Ossétia do Sul sem o consentimento da Geórgia. A eleição presidencial russa decorreu na Abecásia e na Ossétia do Sul em fevereiro de 2008, muito antes da data oficial das eleições na Rússia, tendo sido abertas assembleias de voto em praticamente todas as localidades da Ossétia do Sul. Segundo Shota Malashkhia, membro do parlamento georgiano, a população georgiana étnica do Distrito de Gali da Abecásia foi coagida a votar nas eleições russas. Em 1 de março de 2008, o general russo Vasili Lunev, antigo vice-comandante do Distrito Militar da Sibéria, foi nomeado ministro da Defesa da Ossétia do Sul. Após a guerra de agosto, afirmou numa entrevista que, enquanto militar, tinha obedecido à iniciativa do seu superior para assumir o comando do exército sul-osseta. Em 6 de março de 2008, a Rússia anulou as sanções da Comunidade de Estados Independentes (CEI) impostas à Abecásia em 1996, declarando-as ultrapassadas. O governo central da Geórgia, em Tbilissi, protestou contra a decisão russa. Os restantes países da CEI não acompanharam o levantamento das sanções. Shalva Natelashvili, líder do Partido Trabalhista da Geórgia, advertiu que esta ação russa conduziria à perda da Abecásia para a Geórgia. O Ministro dos Negócios Estrangeiros da Eslovénia Dimitrij Rupel afirmou que os ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia estavam preocupados com este desenvolvimento, enquanto o ministro dos Negócios Estrangeiros sueco Carl Bildt declarou que as ligações económicas da Rússia à Abecásia poderiam conduzir a uma anexação de facto, situação que considerou alarmante. A Comissária Europeia para as Relações Externas Benita Ferrero-Waldner declarou que existia «uma preocupação e ansiedade crescentes de que a Rússia pudesse estar a preparar o caminho para o reconhecimento da Abecásia» e reafirmou o apoio da União Europeia à integridade territorial da Geórgia. Em 10 de março de 2008, o primeiro vice-presidente da Comissão para os Assuntos Internacionais da Duma Estatal da Rússia, Leonid Slutski, declarou que a Abecásia «deve ser incentivada, incluindo através do levantamento das restrições», para cumprir as suas obrigações na resolução do conflito. Em 11 de março de 2008, deputados georgianos ponderavam exigir a Moscovo uma indemnização de 20 mil milhões de dólares norte-americanos pelos prejuízos sofridos na Abecásia. Dmitri Rogozin, embaixador russo junto da NATO, advertiu que uma eventual adesão da Geórgia à NATO poderia aumentar o apoio ao reconhecimento da independência da Abecásia e da Ossétia do Sul. Argumentou que a exclusão dos territórios controlados pelos separatistas do referendo sobre a NATO realizado na Geórgia demonstrava a intenção georgiana de aderir à Aliança sem esses territórios. O vice-presidente da Duma Estatal, Leonid Slutskyi, afirmou que «não serão tomadas decisões» nas audições parlamentares de 13 de março de 2008, uma vez que a Rússia apoiava a integridade territorial da Geórgia e «não mudará subitamente a sua posição para anunciar o contrário». Rogozin declarou igualmente que a Ucrânia poderia perder os seus territórios orientais caso continuasse a procurar a adesão à NATO. Vladimir Socor observou que, «na pior das hipóteses, uma decisão negativa sobre o MAP poderia tentar a Rússia a verificar se a Geórgia se tinha tornado um alvo legítimo». Em 13 de março de 2008, o vice-presidente do Parlamento da Ossétia do Sul, Tarzan Kokoity, declarou que a Abecásia e a Ossétia do Sul se tornariam independentes ainda em 2008. Sublinhou que a Rússia já reconhecia oficiosamente ambas as entidades há muito tempo. No mesmo dia, a Comissão da Duma para a Comunidade de Estados Independentes (CEI), após uma audição sobre as repúblicas não reconhecidas, recomendou o aprofundamento das relações com a Abecásia, a Ossétia do Sul e a Transnístria. Entre as restantes recomendações encontravam-se a criação de missões diplomáticas nessas regiões (cabendo ao Ministério dos Negócios Estrangeiros decidir se seriam consulados ou outro tipo de representação), a eliminação dos direitos aduaneiros sobre produtos fabricados por empresas com coproprietários russos nessas regiões e o aumento da ajuda humanitária e económica aos residentes detentores de passaportes russos. O diário Nezavisimaia Gazeta descreveu a audição como «o lançamento de um processo de reconhecimento». Em 21 de março de 2008, a Duma Estatal aprovou uma resolução na qual apelava ao Presidente da Rússia e ao governo para ponderarem o reconhecimento da Abecásia e da Ossétia do Sul. Alexei Ostrovski, presidente da Comissão da Duma para os Assuntos da CEI e Relações com os Compatriotas, afirmou que a NATO não poderia aceitar a Geórgia enquanto esta não resolvesse os seus litígios territoriais. Em abril, Ostrovski sugeriu que o governo russo se reservava o direito de reconhecer a independência da Abecásia e da Ossétia do Sul caso a adesão da Geórgia à NATO fosse «forçada». Em 1 de abril de 2008, durante uma visita a Kiev, o Presidente dos Estados Unidos George W. Bush manifestou o seu apoio à adesão da Geórgia e da Ucrânia à NATO. Bush planeava reunir-se com o presidente russo Vladimir Putin em 6 de abril, em Sóchi. Em 3 de abril de 2008, os líderes da Abecásia e da Ossétia do Sul receberam uma carta de Putin precisamente quando decorria a cimeira da NATO em Bucareste. Na carta, Putin tratava os dirigentes separatistas por «presidentes» e garantia-lhes assistência russa «prática, não meramente declaratória». Em 8 de abril, o Ministério da Justiça da Rússia informou os seus homólogos georgianos, por carta, de que as relações russas com as duas regiões separatistas seriam reforçadas. O jornalista Petru Bogatu escreveu posteriormente que, após a cimeira de Bucareste anunciar que a questão da adesão seria reconsiderada em dezembro de 2008, diplomatas e jornalistas russos presentes no encontro sugeriam que uma guerra no Cáucaso antes dessa data era inevitável. O Ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia Serguei Lavrov anunciou que a Rússia faria «tudo» para impedir a adesão da Geórgia e da Ucrânia à NATO. O Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas da Rússia Iuri Baluievski declarou, em 11 de abril de 2008, que a Rússia adotaria «medidas de outra natureza», para além da ação militar, com o objetivo de impedir a adesão à NATO das antigas repúblicas soviéticas. Os meios de comunicação russos não consideraram a declaração acidental, uma vez que Baluievski não era conhecido por fazer afirmações sem autorização superior. Deputados georgianos interpretaram as suas palavras como uma ameaça de incursão militar russa na Geórgia. O secretário-geral da Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC), Nikolai Bordiuja, afirmou que a organização responderia ao alargamento da NATO. O Primeiro Vice-Primeiro-Ministro da Rússia Serguei Ivanov sugeriu que as empresas industriais russas e a economia da Rússia poderiam ser reorientadas para satisfazer necessidades de guerra. Em 15 de maio de 2008, Iuri Baluievski instou a NATO, durante uma sessão do Conselho NATO–Rússia, a cessar o armamento da Geórgia. Declarou: «Não excluo a possibilidade de um conflito militar na Geórgia.» O diário Nezavisimaia Gazeta noticiou, em 14 de abril de 2008, que as medidas que seriam em breve anunciadas contra a expansão da NATO incluíam o estabelecimento de contactos oficiais diretos com as autoridades separatistas, tendo já sido preparado um decreto presidencial para esse efeito. Konstantin Zatulin, vice-presidente da Comissão da Duma Estatal para os Assuntos da CEI e Relações com os Compatriotas Russos, afirmou que o reconhecimento deveria ser adiado para dezembro de 2008, a fim de evitar uma escalada brusca das tensões com o Ocidente no início da presidência de Dmitri Medvedev. Contudo, acrescentou:
Um especialista russo em assuntos do Cáucaso mostrou-se preocupado com o possível fracasso da oposição georgiana:
Um diplomata russo anónimo, que tinha trabalhado na Geórgia, afirmou que uma presença militar russa direta na Abecásia e na Ossétia do Sul impediria a adesão da Geórgia à NATO. As suas declarações foram interpretadas como sugerindo que o projeto de decreto visava uma anexação de facto. Em 15 de abril de 2008, foi aberta em Sucumi, na Abecásia, a embaixada da Ossétia do Sul. Em 16 de abril de 2008, Vladimir Putin anunciou que determinados documentos emitidos pelas autoridades separatistas passariam a ser aceites pela Rússia. Declarou ainda que seriam estabelecidas formas de cooperação entre a Rússia e as entidades separatistas em vários domínios, ordenando igualmente ao governo russo que reconhecesse pessoas coletivas registadas ao abrigo da legislação da Abecásia e da Ossétia do Sul. A possibilidade de prestar assistência consular às populações dessas regiões seria também analisada. Esta decisão foi associada à tentativa de promover a atribuição de um Plano de Ação para a Adesão à NATO à Geórgia e, indiretamente, à declaração unilateral de independência do Kosovo. O porta-voz do Departamento de Estado dos Estados Unidos, Sean McCormack, declarou que os Estados Unidos estavam a analisar a ordem de Putin e as declarações do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo. O Ministro dos Negócios Estrangeiros da Abecásia Serguei Shamba afirmou que a Abecásia estava muito próxima do reconhecimento internacional. O Ministro dos Negócios Estrangeiros da Ossétia do Sul Murat Jioev comentou:
O embaixador russo na Geórgia, Viatcheslav Kovalenko, declarou que não existia qualquer confronto entre a Geórgia e a Rússia relativamente à Abecásia e à Ossétia do Sul. O Presidente da Ossétia do Sul Eduard Kokoity elogiou a decisão de Putin, afirmando que esta constituía «a única solução correta para salvar a vida dos cidadãos russos». Em 6 de maio realizaram-se manifestações na Abecásia para agradecer a Vladimir Putin o seu apoio à região. O Ministro dos Negócios Estrangeiros da Geórgia David Bakradze afirmou que o decreto russo que estabelecia relações oficiais com as regiões separatistas constituía uma «legalização do processo de anexação de facto», enquanto o Secretário-Geral da NATO Jaap de Hoop Scheffer instou a Rússia a revogar a medida. O ministro dos Negócios Estrangeiros da Suécia, Carl Bildt, declarou:
Bildt observou igualmente que o decreto de Putin surgira pouco depois de a Geórgia ter anunciado um novo plano de paz para a Abecásia. Vinte e cinco membros da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa emitiram uma declaração afirmando que as forças russas de manutenção da paz «não eram neutras, mas sim uma das partes nos conflitos», defendendo que fossem substituídas por forças das Nações Unidas. A União Europeia divulgou uma declaração manifestando preocupação e apelando à Rússia para que «não implementasse» a decisão de estabelecer relações oficiais com as regiões separatistas. Em 18 de abril de 2008, a Secretária de Estado dos Estados Unidos Condoleezza Rice expressou as suas preocupações relativamente ao decreto de Putin ao seu homólogo russo Serguei Lavrov, durante uma conversa telefónica realizada por sua iniciativa. O candidato presidencial norte-americano John McCain afirmou que o objetivo da Rússia era a «anexação de facto». A Ucrânia, o Presidente da Lituânia Valdas Adamkus, o presidente em exercício da OSCE Alexander Stubb, a representante norte-americana junto da OSCE Julie Finley, o representante especial do Reino Unido Brian Fall e vários membros do Parlamento Europeu condenaram igualmente a decisão russa. Os contactos diretos entre a Rússia e a Abecásia relativos à transferência de cidadãos russos detidos em prisões abecásias suscitaram preocupação ao Secretário-Geral do Conselho da Europa Terry Davis, uma vez que tais diligências foram realizadas sem autorização do governo georgiano. Em 22 de abril de 2008, Vadim Gustov, membro do Conselho da Federação da Rússia, declarou que a câmara alta não aprovaria uma resolução reconhecendo a Abecásia e a Ossétia do Sul, uma vez que isso implicaria o fim do mandato russo de manutenção da paz. No dia seguinte, o Conselho da Federação adiou a apreciação da questão do reconhecimento. O 110.o Congresso dos Estados Unidos aprovou, em 6 de maio de 2008, uma resolução segundo a qual as recentes ações da Rússia eram «provocatórias» e a Rússia «dificulta a reconciliação entre essas regiões e o governo da República da Geórgia». Em 8 de maio de 2008, o Secretário de Estado Adjunto para os Assuntos Europeus e Eurasiáticos dos Estados Unidos Daniel Fried declarou perante o Congresso:
Em maio de 2008, o subsecretário adjunto de Estado Matthew Bryza afirmou que as «ações provocatórias» da Rússia eram vistas como contrárias a uma resolução pacífica da questão georgiano-abecásia. Em 12 de maio, o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia condenou as declarações de Bryza. Em 13 de maio, Robert Parsons sugeriu que a Rússia estava a provocar a Geórgia «a agir precipitadamente». Concluiu:
Foi noticiado que a empresa estatal russa Gazprom planeava iniciar prospeções de petróleo e gás na Abecásia a partir de 1 de julho de 2008. Além disso, as autoridades abecásias anunciaram que voos internacionais provenientes da Rússia poderiam utilizar o aeroporto de Sucumi, embora a Organização da Aviação Civil Internacional tivesse declarado que tais voos seriam inadmissíveis. Responsáveis da Gazprom declararam, contudo, que a empresa não planeava realizar prospeções petrolíferas na Abecásia, embora confirmassem a existência de uma proposta para construir um gasoduto para a região. Em resposta às notícias da imprensa russa segundo as quais seriam retomadas as ligações marítimas entre Sóchi, na Rússia, e Gagra, na Abecásia, a Geórgia ameaçou apresentar queixa junto de organizações marítimas internacionais devido à utilização de rotas consideradas «ilegais».
Incidentes de abate de drones georgianos
Em 20 de abril de 2008, um veículo aéreo não tripulado (UAV) georgiano desarmado foi abatido sobre a zona de conflito da Abecásia. A Geórgia alegou que um caça MiG-29 Fulcrum, proveniente da base militar de Gudauta, tinha sido responsável pelo ataque; contudo, esta alegação foi rejeitada pela Força Aérea Russa. A Geórgia já tinha anteriormente negado a alegação dos separatistas abecásios de que o drone teria sido abatido às 06:00 GMT. A Abecásia declarou que estava a proteger o seu espaço aéreo e que o aparelho abatido era um Hermes 450 de fabrico israelita. Segundo o vice-ministro da Defesa da República da Abecásia, Garry Kupalba, «uma aeronave L-39 da Força Aérea da Abecásia» destruiu o drone. Além disso, o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia divulgou uma declaração acusando a Geórgia de violar o Acordo de Moscovo sobre o cessar-fogo e separação de forças de 1994 e as Resoluções das Nações Unidas sobre a Abecásia, ao utilizar sem autorização um UAV que também poderia ser empregado para correção de tiro de artilharia. No entanto, no dia seguinte, o Ministério da Defesa da Geórgia divulgou publicamente as imagens captadas pelo drone. O vídeo mostrava o UAV georgiano desarmado a ser atacado por um alegado MiG-29 russo, supostamente sobre o Mar Negro. A Rússia negou que qualquer aeronave russa estivesse a operar na área no momento do incidente. Em 21 de abril de 2008, o Presidente da Geórgia Mikheil Saakashvili telefonou ao presidente russo Vladimir Putin para discutir os mais recentes desenvolvimentos nas relações russo-georgianas. Em 23 de abril de 2008, realizou-se em Nova Iorque uma reunião à porta fechada do Conselho de Segurança das Nações Unidas. A Geórgia tinha solicitado a convocação da reunião. O ministro dos Negócios Estrangeiros georgiano, Davit Bakradze, participou igualmente nos trabalhos. Após a sessão do Conselho de Segurança, os Estados Unidos, o Reino Unido, a França e a Alemanha manifestaram preocupação com as ações da Rússia na Abecásia e apelaram a Moscovo para que não aplicasse a sua decisão de aprofundar os laços com a Abecásia e a Ossétia do Sul. Contudo, Vitali Tchurkin, Representante Permanente da Rússia junto das Nações Unidas, classificou esse apelo como uma exigência irrealista, sublinhando que a Rússia não revogaria a sua decisão. O representante especial da NATO para o Cáucaso e a Ásia Central, Robert Simmons, declarou que a Aliança apoiava a posição dos Estados Unidos, do Reino Unido, da França e da Alemanha, acrescentando que a NATO questionava «o papel da Rússia como mediadora na resolução dos conflitos da Abecásia e da Ossétia do Sul». O embaixador russo junto da NATO, Dmitri Rogozin, alegou que o drone teria sido abatido por um MiG-29 da NATO. Em resposta, o secretário-geral da NATO, Jaap de Hoop Scheffer, comentou ironicamente que «comeria a sua gravata» se se demonstrasse que um MiG-29 da NATO tinha aparecido magicamente na Abecásia para abater um drone georgiano. No início de maio de 2008, alegações russas e abecásias de que mais dois drones de reconhecimento georgianos tinham sido abatidos sobre a Abecásia foram rejeitadas pela Geórgia, que as classificou como «uma provocação» destinada a criar «apoio informativo e propagandístico para a intervenção militar russa». Em 12 de maio de 2008, as autoridades abecásias anunciaram ter abatido o sétimo drone georgiano, mas a Geórgia rejeitou a alegação. Em 26 de maio de 2008, a Missão de Observação das Nações Unidas na Geórgia (UNOMIG) divulgou as conclusões da sua investigação independente sobre o incidente de 20 de abril. O relatório confirmou que as imagens de vídeo e os dados de radar apresentados pela Geórgia eram autênticos e que o avião que destruiu o drone era efetivamente russo. O relatório concluiu ainda que, após o incidente, o caça regressou em direção ao território russo, embora não tenha sido possível determinar o local exato de descolagem, sendo a base de Gudauta identificada como uma possibilidade. A Geórgia saudou as conclusões do relatório, enquanto a Rússia as rejeitou. Os voos de drones georgianos sobre a Abecásia foram oficialmente suspensos no início de junho de 2008, mas a Abecásia acusou a Geórgia de continuar a operar UAV na região.
Reforço militar na Abecásia Em 17 de abril de 2008, o Presidente da Abecásia Serguei Bagapsh advertiu que a Abecásia destacaria as suas forças armadas para o Distrito de Gali e para o Vale de Kodori caso a Geórgia não retirasse as suas forças armadas do Município de Zugdidi e da parte superior do Vale de Kodori. Em 26 de abril de 2008, Valeri Keniaikin, representante especial do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia para o desenvolvimento das relações com os países da CEI, declarou que o conflito entre a Geórgia e a Rússia poderia escalar para um confronto militar, uma vez que a Rússia estava preparada para defender os interesses dos cidadãos russos nas regiões separatistas. Uma fonte europeia de alto nível declarou ao Nezavisimaia Gazeta que a escalada russa poderia levar alguns países europeus a alterar a sua posição e apoiar uma adesão acelerada da Geórgia à NATO. Em resposta às declarações de Keniaikin, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Geórgia, David Bakradze, planeava solicitar ajuda à NATO. Um responsável do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo afirmou que as forças de manutenção da paz russas não abandonariam a Abecásia sem o consentimento desta e que apenas deixariam o território georgiano propriamente dito do outro lado do rio Enguri. Em 29 de abril, o governo russo afirmou que a Geórgia estava a concentrar 1 500 militares e agentes da polícia na parte superior do Desfiladeiro de Kodori e que planeava atacar a Abecásia. Numa intervenção televisiva, o presidente Saakashvili comprometeu-se a prosseguir apenas uma via pacífica nas zonas de conflito e apelou aos abecásios e aos ossétios para se unirem à Geórgia contra as tentativas de um ator externo «escandaloso e irresponsável» de provocar derramamento de sangue. A Rússia anunciou que reforçaria o seu dispositivo militar na região e o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Lavrov, ameaçou retaliar militarmente contra a Geórgia. O Primeiro-Ministro da Geórgia Lado Gurgenidze declarou que a Geórgia consideraria quaisquer tropas adicionais na Abecásia como forças agressoras. A União Europeia apelou à Rússia para se abster de tomar medidas precipitadas. Carl Bildt comentou que a Rússia estava a provocar uma guerra na Geórgia através dos seus desenvolvimentos na Abecásia. Em 30 de abril, o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Geórgia declarou que veículos blindados russos, artilharia pesada e forças militares adicionais tinham atravessado a fronteira estatal no rio Psou sem o consentimento da Geórgia. O responsável da NATO James Appathurai afirmou que a Rússia «aumentou as tensões e minou a integridade territorial da Geórgia». A admissão da Rússia na Organização Mundial do Comércio (OMC) foi suspensa pela Geórgia em 29 de abril. Em 29 de abril de 2008, residentes de Moscovo observaram novos tanques russos a deslocarem-se pela Avenida Leningradski, tendo um deles a inscrição «Para Tbilissi». Um blogueiro russo comentou: «A guerra entre a Rússia e a Geórgia é mais real do que nunca». Cossacos russos e voluntários do Cáucaso do Norte declararam estar prontos para combater a Geórgia em caso de renovação do confronto na Abecásia. O atamã dos Cossacos do Don Viktor Vodolatski declarou em 30 de abril que os cossacos estavam prontos para defender a população da Abecásia, da Ossétia do Sul e da Crimeia. Movladi Udugov afirmou em 3 de maio que o emir do Emirado do Cáucaso Dokka Umarov autorizara, dois meses antes, a criação de um grupo especial para monitorizar as tensões russo-georgianas, os destacamentos militares russos no Cáucaso do Norte e recolher informações na Abecásia e na Ossétia do Sul. No início de maio de 2008, um funcionário russo anónimo afirmou que a Geórgia tinha preparado um plano de guerra contra a Abecásia com a ajuda de conselheiros estrangeiros e que as embaixadas estrangeiras se preparavam para evacuar Tbilíssi. O Ministério dos Negócios Estrangeiros da Geórgia ridicularizou esta alegação. O Ministro da Defesa da Abecásia declarou: «Se eles [os georgianos] nos invadirem, precisaremos de dois dias para nos defendermos e, passados esses dois dias, chegaremos nós próprios a Kutaisi (oeste da Geórgia); temos tropas e equipamento suficientes.» Em 6 de maio de 2008, o ministro de Estado georgiano para a Reintegração, Temur Iakobashvili, afirmou que a Geórgia estava à beira de uma guerra com a Rússia. Iakobashvili acrescentou ainda: «Sabemos quais são os sinais quando se vê propaganda dirigida contra a Geórgia.» O ministro dos Negócios Estrangeiros da Abecásia, Serguei Shamba, declarou que a Abecásia estava preparada para conceder à Rússia o controlo militar do território situado entre os rios Psou e Enguri. Alexei Ostrovski, presidente da Comissão da Duma Estatal para os Assuntos da CEI e Relações com os Compatriotas, respondeu à declaração de Shamba afirmando que a Rússia não consideraria a construção de bases militares na Abecásia antes da resolução do estatuto do território. Um porta-voz do Departamento de Estado dos Estados Unidos afirmou que as recentes ações da Rússia «aumentaram significativamente e desnecessariamente as tensões na região e são incompatíveis com o estatuto da Rússia como facilitadora do processo dos Amigos da ONU para a Abecásia». O Departamento de Estado instou a Rússia a «reconsiderar» algumas das suas «medidas provocatórias». A Câmara dos Representantes dos Estados Unidos condenou as «declarações e ações provocatórias e perigosas» da Rússia. No início de maio, os meios de comunicação georgianos noticiavam que a Rússia prestaria assistência aos seus cidadãos na Abecásia. O jornal Rezonansi informou que a Rússia e os separatistas abecásios lançariam uma ofensiva contra o desfiladeiro de Kodori. Segundo uma declaração emitida pelo Ministério da Defesa da Rússia em 8 de maio, o número de forças de manutenção da paz russas destacadas na Abecásia foi aumentado para 2 542 militares. Contudo, os efetivos russos permaneciam abaixo do limite de 3 000 soldados imposto por uma decisão de 1994 dos chefes de Estado da CEI. A Missão de Observação das Nações Unidas na Geórgia (UNOMIG) declarou que os seus observadores não tinham detetado qualquer reforço militar nem na fronteira administrativa da Abecásia nem no desfiladeiro de Kodori. O Ministério da Defesa russo alegou que o observador-chefe da ONU «concordou que as ações do lado russo não contradizem os acordos fundamentais relativos à condução da operação de manutenção da paz». Contudo, a missão respondeu posteriormente que «não tem autoridade para se pronunciar sobre a conformidade entre a operação de manutenção da paz da CEI na zona do conflito georgiano-abecásio e as normas da CEI». Fontes do Estado-Maior das Tropas Aerotransportadas Russas afirmaram que um batalhão regular de 400 militares fortemente armados, sem funções de manutenção da paz, tinha sido enviado para a Abecásia sem o consentimento da Geórgia. Em 12 de maio, o secretário-adjunto assistente de Estado para os Assuntos Europeus e Eurasiáticos, Matthew Bryza, durante uma visita a Tbilíssi, criticou o destacamento militar russo na Abecásia: «Em toda a minha carreira, nunca ouvi falar de artilharia a ser utilizada para manter a paz.» Em 18 de maio, a Geórgia apresentou à BBC imagens de vídeo captadas por um drone que alegadamente demonstravam que as forças russas utilizavam armamento pesado na Abecásia e atuavam como tropas de combate, e não como forças de manutenção da paz; a Rússia rejeitou as acusações. Em 11 de maio de 2008, o governo pró-georgiano da Abecásia no exílio afirmou que um destacamento de paraquedistas tinha chegado a Tkvarcheli em preparação para um assalto ao desfiladeiro de Kodori e que era comandado pelo antigo chefe do Estado-Maior das Forças Coletivas de Manutenção da Paz da CEI. Os meios de comunicação georgianos noticiaram que altos oficiais russos tinham chegado a Sukhumi para «coordenar as ações das forças militares russas na Abecásia».7t O especialista militar russo Alexandr Golts escreveu no início de maio de 2008: "Ninguém quer a guerra, mas ambos os lados estão a fazer tudo para espoletar um conflito militar." O presidente georgiano, Mikheil Saakashvili, afirmou: "estivemos perto de um conflito armado há poucos dias, mas agora a tensão diminuiu um pouco". Saakashvili garantiu que vários funcionários russos lhe tinham dito que "foi decidido não desistir da Abecásia". Mais tarde, o especialista militar russo Pavel Felgenhauer escreveu que a declaração de Serguei Shamba sobre o plano para criar uma "zona de amortecimento" a partir da Geórgia sugeria provavelmente que a Abecásia pretendia deportar os residentes dessa área. De acordo com Felgenhauer, embora a Geórgia estivesse a ser acusada de se preparar para a guerra, "não existem sinais de preparativos de combate na Geórgia." O líder separatista Serguei Bagapsh disse ser a favor de a Rússia estabelecer uma base militar na Abecásia e apelou à assinatura de um tratado militar com a Rússia semelhante ao Taiwan Relations Act. Alexandr Zelin, comandante das Forças Aéreas Russas, afirmou que, se tal decisão fosse tomada, isso "promoveria a implementação de tarefas de defesa aérea" e observou que a Rússia mantinha uma cooperação semelhante com a Arménia. A 16 de maio de 2008, Iuri Baluievski, chefe do Estado-Maior General russo, negou que a Rússia tivesse quaisquer planos para construir uma base militar na Abecásia. A 15 de maio de 2008, o Ministério da Defesa russo publicou informações sobre o armamento militar fornecido à Geórgia pelo Ocidente e alegou que o "reforço das capacidades militares [da Geórgia] desempenha um papel desestabilizador na situação político-militar na região do Cáucaso Sul". As autoridades georgianas afirmaram que as informações sobre o equipamento militar estavam "desatualizadas". A 18 de maio de 2008, cinco pacificadores russos foram detidos ao longo da fronteira administrativa com a Abecásia; contudo, foram libertados mais tarde. De acordo com a Geórgia, o veículo blindado de transporte de pessoal dos russos colidiu com um automóvel georgiano na cidade de Zugdidi; no entanto, Alexandr Diordiev, um oficial das forças de manutenção da paz russas, afirmou que não houve qualquer colisão e que, em vez disso, os georgianos provocaram os pacificadores numa tentativa de desacreditar os russos. Segundo Diordiev, na noite de 17 para 18 de maio, a estrada perto da aldeia de Urta foi fechada para os pacificadores que transportavam equipamento militar, tendo depois surgido um carro que já se encontrava danificado. A polícia georgiana atribuiu os danos do automóvel aos pacificadores russos e usou a força contra eles. Diordiev declarou que os georgianos sabiam antecipadamente do destacamento do equipamento. Uma declaração do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo, emitida a 19 de maio de 2008, referia que as ações dos georgianos foram dignas de "verdadeiros bandidos de rua", afirmando que estes recorreram ao "uso da força física bruta" contra os pacificadores. Os pacificadores russos foram libertados graças aos esforços do comando das Forças Coletivas de Apoio à Paz e da missão da ONU. O jornal Nezavisimaia Gazeta noticiou a 19 de maio que os pacificadores russos tinham sido autorizados recentemente a empreender ações militares de forma independente, se necessário, e o ministro dos Negócios Estrangeiros da Abecásia, Serguei Shamba, afirmou que este relato era "credível". A 21 de maio de 2008, foi relatado um tiroteio intenso perto da fronteira administrativa da Abecásia, com um funcionário do Ministério dos Assuntos Internos da Geórgia a afirmar que dois autocarros com passageiros que iam votar nas eleições georgianas tinham sido atacados. Alguns relatos indicavam que a ponte que liga a Abecásia à região georgiana de Mingrélia tinha sido encerrada pelos separatistas abecazes durante as eleições na Geórgia. As autoridades georgianas acusaram a Abecásia dos ataques e de impedir os georgianos de votar nas eleições legislativas. O presidente abecásio, Serguei Bagapsh, negou estas acusações, afirmando, pelo contrário, que o ataque ocorreu em território georgiano e que os georgianos que viviam na Abecásia não tinham interesse em votar. Segundo a Abecásia, com o intuito de evitar tensões, foram destacados pacificadores russos ao longo da fronteira. O Ministério dos Negócios Estrangeiros georgiano enviou uma nota de protesto ao secretariado da CEI a 21 de maio. A Geórgia exigiu que as tropas e o armamento ilegal russo fossem retirados da Abecásia, argumentando que o recente destacamento de tropas e equipamento militar (um batalhão aerotransportado, 50 veículos de combate aerotransportados BMD-2 e duas baterias de artilharia) contradizia uma resolução de 1995 adotada pelo conselho de presidentes da CEI. A 9 de junho de 2008, o ministro dos Assuntos Internos da Geórgia, Vano Merabishvili, comentou a declaração das autoridades abecazes sobre o Vale de Kodori: "Não queremos a guerra, estamos a pôr ordem no nosso território." Merabishvili explicou que o Vale de Kodori era um refúgio de criminosos e que as autoridades georgianas foram forçadas a restabelecer o controlo. Afirmou ainda que a Rússia estava pronta para iniciar a guerra na Abecásia para impedir a adesão da Geórgia à NATO. A 12 de junho de 2008, o cientista político americano Zbigniew Brzezinski afirmou que a Rússia estava a tentar obter o controlo do Oleoduto Baku-Tbilisi-Ceyhan através da desestabilização da situação na Geórgia. A 15 de junho de 2008, relatos da comunicação social indicaram que tinha sido estabelecida uma base militar russa perto da aldeia de Agubedia, no Distrito de Ochamchira da Abecásia. Segundo as notícias, tinha sido enviado armamento pesado para o local. Os relatos foram desmentidos pelo Ministério da Defesa russo. O governo abecásio no exílio, apoiado pela Geórgia, afirmou a 17 de junho que a Rússia se recusou a permitir observadores da ONU na região. A 17 de junho de 2008, um porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo alertou que a tentativa georgiana de rever a operação de manutenção da paz na zona de conflito georgiano-abecásio poderia "descongelar" o conflito. De acordo com o próprio, devido a isso, a situação poderia "escapar ao controlo" em toda a região circundante. A 17 de junho de 2008, quatro pacificadores russos e um camião militar foram capturados perto da fronteira entre a Geórgia propriamente dita e a Abecásia. O Ministério do Interior da Geórgia afirmou que os pacificadores transportavam 35 caixas de munições, violando assim os acordos existentes, enquanto o Ministério da Defesa russo declarou que a detenção foi efetuada "em violação de todas as normas regulamentares na zona de amortecimento". Segundo a polícia georgiana, após nove horas de interrogatório, os pacificadores foram libertados. O presidente russo, Dmitri Medvedev, disse por telefone ao presidente georgiano Saakashvili, a 18 de junho, que a Rússia não toleraria "provocações" contra os pacificadores russos. A vice-ministra do Interior georgiana, Eka Zguladze, afirmou que o armamento apreendido não seria devolvido aos pacificadores uma vez que estes "não apresentaram quaisquer documentos legais relativos às armas, e o lado georgiano não foi informado sobre isto." O tenente-general Alexandr Burutin, chefe adjunto do Estado-Maior General russo, comparou a detenção a "um ataque de bandidos" a 19 de junho, afirmando que os pacificadores russos tinham todo o direito de usar as suas armas. O presidente russo, Dmitri Medvedev, reiterou a 21 de junho que a Rússia não toleraria tais ações contra as forças de manutenção da paz. O especialista militar russo Pavel Felgenhauer, ao comentar a situação na zona de conflito a 19 de junho, previu a guerra entre a Geórgia e a Abecásia. Felgenhauer afirmou a 20 de junho que Vladimir Putin já tinha decidido iniciar uma guerra contra a Geórgia na Abecásia e na Ossétia do Sul, presumivelmente no final de agosto de 2008. As provocações contra a Geórgia começariam na Alta Abecásia e na Ossétia do Sul, estendendo-se depois a guerra ao resto do território georgiano. A 23 de junho de 2008, Serguei Bagapsh declarou que iria fechar a fronteira marítima à Geórgia. A 24 de junho de 2008, os pacificadores russos estabeleceram o recolher obrigatório no distrito de Gali, na Abecásia, ficando com o controlo total das estradas rodoviárias. As forças russas e abecásias realizavam um exercício conjunto perto do Vale de Kodori. A 26 de junho de 2008, o presidente russo Dmitri Medvedev recebeu oficialmente Serguei Bagapsh como presidente da Abecásia, em Moscovo. O vice-ministro dos Negócios Estrangeiros georgiano, Grigol Vashadze, expressou a sua preocupação face ao encontro, afirmando que tais ações contrariavam as resoluções do Conselho de Segurança da ONU. O Ministério dos Negócios Estrangeiros russo declarou-se surpreendido com a reação georgiana. A 29 de junho, ocorreram duas explosões em Gagra, provocando seis feridos. O presidente abecásio, Bagapsh, acusou a Geórgia de seguir "uma política de terrorismo de Estado." De acordo com uma fonte do Gruziya Online, um turista russo vindo dos Urais morreu em Gagra, mas o facto estaria a ser ocultado. A 30 de junho, registaram-se duas explosões em Sukhumi que feriram 6 pessoas. As autoridades abecazes declararam que tinham sido utilizados engenhos explosivos semelhantes tanto em Gagra como em Sukhumi. O presidente abecásio visitou o local das explosões em Sukhumi e anunciou o encerramento da fronteira com a Geórgia.
Acontecimentos de maio e junho na Ossétia do Sul A ministra dos Negócios Estrangeiros da Geórgia, Eka Tkeshelashvili, afirmou, em 15 de maio de 2008, que o destacamento de forças de manutenção da paz russas adicionais para a Ossétia do Sul seria encarado pela Geórgia como uma «grave violação da soberania e da integridade territorial da Geórgia». No final de maio de 2008, encontravam-se presentes na Ossétia do Sul cerca de 1 000 forças de manutenção da paz russas. Foi noticiado que ocorreram três explosões na Ossétia do Sul. Numa delas, uma bomba explodiu perto de um veículo da polícia georgiana, ferindo um militar. As autoridades sul-ossetas foram acusadas pelo vice-ministro da Defesa da Geórgia, Batu Kutelia, de recorrerem a «táticas de terrorismo». Em 20 de maio de 2008, os embaixadores estrangeiros foram instados por Taimuraz Mamsurov, presidente da República russa da Ossétia do Norte, a ajudarem a Ossétia do Norte a unir-se à Ossétia do Sul. O embaixador georgiano Erosi Kitsmarishvili declarou que tal fusão violaria o direito internacional. O líder sul-osseta Eduard Kokoity aprovou a proposta de Mamsurov, afirmando que «o principal objetivo da Ossétia do Sul é a unificação com a Ossétia do Norte na Federação Russa». Kokoity e Dmitri Medoiev sugeriram um período transitório durante o qual a Ossétia do Sul seria reconhecida como independente e posteriormente integrada formalmente na Rússia através de um referendo. Na noite de 14 para 15 de junho de 2008, registaram-se disparos de morteiro e uma troca de tiros entre forças sul-ossetas e georgianas. Uma pessoa morreu e quatro ficaram feridas nos confrontos, tendo sido também reportados danos em várias habitações georgianas. O ministro do Interior da Ossétia do Sul, Mikhail Mindzaev, alegou que as suas forças estavam a responder a fogo de morteiro proveniente de aldeias sob controlo georgiano. Segundo ele, a troca de tiros durou cerca de quatro horas, enquanto o comandante das Forças Conjuntas de Manutenção da Paz afirmou que durara aproximadamente uma hora e meia. A Geórgia negou ter iniciado os confrontos e declarou que as aldeias de Ergneti, Nikozi e Prisi, sob controlo georgiano, tinham sido atacadas pela Ossétia do Sul. Noutro incidente, uma mina terrestre feriu um rapaz de 14 anos perto de Ergneti, que viria posteriormente a morrer. Segundo a Ossétia do Sul, cinco pessoas ficaram feridas durante os confrontos, tendo uma delas falecido mais tarde. A zona dos confrontos foi visitada por forças de manutenção da paz russas, georgianas e norte-ossetas, bem como por observadores da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE). O grupo foi alvo de disparos perto de Ergneti, sem causar feridos. A troca de tiros começou na noite de 15 de junho, às 23h38, e durou cerca de meia hora. Foram utilizadas armas automáticas e lança-granadas. Alexandr Duguin, conhecido pelas suas fortes ligações aos meios militares e de inteligência russos, visitou a Ossétia do Sul no final de junho de 2008. Em 30 de junho, declarou numa conferência de imprensa:
«A Rússia decidiu praticamente reconhecer [a Abecásia e a Ossétia do Sul], e vocês prepararam tudo de forma exemplar para isso. [...] O último argumento formal dos opositores ao reconhecimento da Ossétia do Sul é, talvez, a ausência de um projeto para a integração dos enclaves georgianos existentes no interior da Ossétia do Sul. Esta questão será utilizada repetidamente para pressionar e atacar Putin e Medvedev, alegando que a falta de resolução deste problema constitui um obstáculo fundamental ao reconhecimento da Ossétia do Sul. [...] Trata-se de um pretexto que não pode ser ignorado. [...] Se a Rússia reconhecer a independência da Ossétia do Sul e aí destacar não forças de manutenção da paz, mas tropas russas da guarda de fronteira, a adesão da Geórgia à NATO será retirada da agenda durante muito tempo ou então implicará um conflito direto com os Estados Unidos. [...] Por isso, devemos reconhecer a Abecásia e a Ossétia do Sul antes de dezembro.»
A União da Juventude Eurasiática realizou uma sessão em Tskhinvali, em 30 de junho. A assembleia aprovou uma resolução comprometendo-se a enviar milhares de voluntários armados para a Ossétia do Sul e a Abecásia, com o objetivo de defender a população local de um alegado genocídio. A resolução apoiava igualmente o reconhecimento da Abecásia e da Ossétia do Sul e a sua integração na Federação Russa. Em 30 de junho de 2008, as autoridades sul-ossetas acusaram a Geórgia de ter raptado um cidadão russo em Tskhinvali, que tinha chegado de Vladikavkaz para visitar familiares.
Acusação de espionagem russa Em 16 de maio de 2008, foi noticiado que o Serviço Federal de Segurança (FSB) da Rússia alegava ter capturado um espião checheno. Segundo as autoridades russas, o alegado agente atuava em benefício da Geórgia e prestava apoio aos rebeldes no Sul da Rússia. O suposto agente foi identificado como Ramzan Turkoshvili, um cidadão russo nascido na Geórgia. De acordo com um funcionário não identificado do FSB, os serviços secretos georgianos, em colaboração com Zelimkhan Khangoshvili, seriam responsáveis pelo recrutamento de Turkoshvili. A detenção foi apresentada como uma prova de que a Geórgia estava «a participar em atividades terroristas subversivas no Cáucaso do Norte». As acusações foram rejeitadas por Shota Utiashvili, porta-voz do Ministério do Interior da Geórgia. Utiashvili classificou as alegações como «uma continuação da política de provocação da Rússia contra a Geórgia, que recentemente assumiu uma forma particularmente aguda».
Tropas ferroviárias russas na Abecásia Em 31 de maio de 2008, a Rússia destacou tropas ferroviárias para reparar uma linha férrea na Abecásia. Segundo o Ministério da Defesa russo, as tropas ferroviárias não estavam armadas. A Geórgia afirmou que esta ação constituía um ato «agressivo». O vice-ministro dos Negócios Estrangeiros da Geórgia, Grigol Vashadze, declarou: «Ninguém precisa de trazer tropas ferroviárias para o território de outro país, a menos que esteja a preparar uma intervenção militar.» O Departamento de Estado dos Estados Unidos afirmou igualmente que a decisão russa os tinha «alarmado». Temur Mjavia, presidente do Conselho Supremo da Abecásia no exílio, afirmou que a Rússia planeava reconhecer a Abecásia em 27 de setembro, o «dia da independência» da Abecásia, mas Viatcheslav Kovalenko, embaixador russo na Geórgia, rejeitou estas alegações como «fabricações». A chegada das novas tropas russas à Abecásia ocorreu poucos dias antes de uma reunião prevista entre os presidentes Mikheil Saakashvili, da Geórgia, e Dmitri Medvedev, da Rússia, durante uma cimeira da Comunidade de Estados Independentes em São Petersburgo, agendada para 6 e 7 de junho. Foi noticiado que Saakashvili abordaria esta questão com Medvedev por telefone em 3 de junho. Em 3 de junho, o secretário-geral da NATO, Jaap de Hoop Scheffer, declarou que a Rússia tinha violado a soberania da Geórgia e apelou à retirada das tropas ferroviárias. Em 7 de junho de 2008, o ministro da Defesa russo, Anatoli Serdiukov, declarou que as tropas ferroviárias se retirariam após concluírem os trabalhos na linha férrea dentro de dois meses. A Rússia afirmou ter encontrado uma mina anticarro em 13 de junho num troço da via férrea que estava a ser reabilitado. Moscovo alegou que tinha sido tentado um «ato terrorista subversivo» contra as Tropas Ferroviárias Russas. Em 18 de junho de 2008, um oficial militar russo anunciou duas explosões na linha férrea perto de Sukhumi, o que levou ao reforço da segurança, enquanto a polícia abecásia suspeitava que as tropas ferroviárias russas eram o alvo dos atentados. Malkhaz Akishbaya, presidente do governo abecásio no exílio apoiado pela Geórgia, afirmou que a explosão era uma provocação destinada a desacreditar a Geórgia e também a legitimar a presença das tropas ferroviárias russas. Em 23 de junho de 2008, Serguei Bagapsh afirmou que materiais de construção destinados a um complexo desportivo para os Jogos Olímpicos de Inverno de 2014, em Sóchi, na Rússia, seriam transportados pela linha férrea reabilitada pelas tropas ferroviárias russas. No início de julho de 2008, o analista político georgiano Mamuka Areshidze observou que a linha entre Sóchi e Sukhumi estava operacional e que os trabalhos de reparação incidiam sobretudo na ligação a Ochamchira, onde se situava a antiga base fronteiriça soviética, particularmente adequada para a movimentação de tropas em direção ao vale de Kodori. Areshidze sugeriu que a Abecásia tinha encerrado a fronteira com a Geórgia para encobrir preparativos militares. Em 21 de julho de 2008, foi noticiado que a reparação dos 54 km (34 mi) da linha férrea entre Sukhumi e Ochamchira tinha sido concluída. Anteriormente, um responsável militar russo tinha afirmado que estava previsto que os trabalhos terminassem a 6 de agosto. Em 24 de julho de 2008, o Ministério da Defesa russo anunciou que a renovação da linha férrea abecásia estava praticamente concluída e que uma cerimónia de inauguração teria lugar no final de julho. Após participarem na cerimónia, as tropas ferroviárias regressariam à Rússia no início de agosto. As tropas ferroviárias russas participaram na cerimónia de inauguração da linha em 30 de julho de 2008, no mesmo dia em que também se retiraram. Historicamente, quando a União Soviética planeava uma nova ofensiva militar, as tropas ferroviárias eram destacadas antecipadamente para a futura zona de combate. O exemplo anterior de tal destacamento ocorreu na Chechénia, em 1999. A linha férrea fixa (Sukhumi–Ochamchira) foi utilizada para transportar equipamento militar por, pelo menos, uma parte dos 9 000 soldados russos que entraram na Geórgia a partir da Abecásia durante a invasão de agosto de 2008.
Eventos de julho de 2008
1 e 2 de julho A 1 de julho de 2008, o tráfego marítimo entre Sóchi e Gagra foi retomado. A 2 de julho de 2008, as forças de manutenção de paz russas na Abecásia alegaram que um automóvel se aproximou do posto de controlo russo na fronteira com a Geórgia e arremessou um objeto não identificado que detonou; em seguida, o veículo inverteu a marcha em direção à Geórgia e os militares georgianos não o retiveram. Ocorreu ainda uma explosão entre o posto do Ministério do Interior georgiano e o posto das forças de manutenção de paz russas na Ossétia do Sul às 20:00 (hora de Moscovo).
3 e 4 de julho Na madrugada de 3 de julho de 2008, um atentado à bomba matou o oficial da polícia sul-osseta Nodar Bibilov na aldeia de Dmenisi. Algumas horas mais tarde, uma bomba acionada por controlo remoto visou o automóvel de Dmitry Sanakoyev, o líder do governo da Ossétia do Sul pró-georgiano. Após a explosão, foi aberto fogo a partir das aldeias de Sarabuki e Kokhati, ao qual os guarda-costas de Sanakoev responderam. Três guarda-costas ficaram feridos. O vice-ministro da Defesa da Ossétia do Sul, Ibrahim Gazseev, alegou que unidades do Ministério do Interior georgiano tinham tomado uma colina de 300 metros de altitude perto da aldeia de Sarabuki. Por volta das 20:10, o posto sul-osseta na aldeia de Kokhati foi alvo de disparos. A Ossétia do Sul relatou que o posto do Ministério do Interior perto da aldeia de Ubiat foi atacado a partir de Nuli, controlada pela Geórgia. O ataque matou um miliciano sul-osseta e feriu outro. As autoridades da Ossétia do Sul informaram que a Geórgia iniciou o bombardeamento de Tskhinvali por volta das 23:40. O bombardeamento de Tskhinvali resultou na morte de um homem e causou ferimentos em sete pessoas. Pela manhã de 4 de julho, os sul-ossetas relataram que a operação militar especial da Geórgia tinha provocado a morte de 3 pessoas e ferido outras 11. As autoridades georgianas afirmaram que os sul-ossetas bombardearam as aldeias de Tamarasheni e Nikozi, sob controlo georgiano, durante 6 horas, o que forçou os georgianos a responder. O chefe das forças de manutenção de paz georgianas, Mamuka Kurashvili, afirmou que às 6:00 da manhã de 4 de julho, os separatistas sul-ossetas tentaram atacar o posto georgiano na estrada de contorno entre os vales do Pequeno Liakhvi e do Grande Liakhvi. As forças militares da Ossétia do Sul foram mobilizadas na manhã de 4 de julho e as forças de manutenção de paz foram colocadas em estado de alerta. A Ossétia do Sul alertou que o seu armamento pesado entraria na zona de conflito se os ataques não cessassem. As forças de manutenção de paz russas declararam que 7 aviões não identificados sobrevoaram Tskhinvali durante a noite. O chefe das forças de manutenção de paz russas foi citado a afirmar que forças adicionais poderiam ser enviadas para a Ossétia do Sul em caso de uma maior deterioração da situação. As Forças Armadas da Abecásia foram colocadas em alerta de combate. O líder abecásio Bagapsh ameaçou que, se a Geórgia não parasse de atacar Tskhinvali, a Abecásia não abandonaria a Ossétia do Sul num momento de necessidade e a guerra alastrar-se-ia a toda a região do Cáucaso. O líder sul-osseta Eduard Kokoity apelou ao Presidente da Rússia para destacar forças russas para a Ossétia do Sul a fim de defender os cidadãos da Rússia. Kokoity afirmou que as forças de manutenção de paz georgianas se equiparavam aos agressores. O enviado da Rússia à NATO, Dmitry Rogozin, declarou que a Rússia não conseguiria conter os voluntários do Cáucaso do Norte de participar na guerra contra a Geórgia. Ao final da tarde, Kokoity cancelou a mobilização total. O Ministério dos Negócios Estrangeiros russo afirmou que o ataque contra Sanakoev, classificado como «a marioneta pró-georgiana», foi «obviamente encenado» e acusou a Geórgia de um «ato aberto de agressão» contra a Ossétia do Sul. O vice-ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Grigory Karasin, chegou a Tiblíssi. O jornal Kommersant confirmou que os georgianos tinham tomado o controlo da colina de Sarabuki após o ataque a Sanakoev e observou: «Uma vez que a perda de uma posição estratégica é inaceitável para Tskhinvali, poderão iniciar-se hostilidades em larga escala em redor da aldeia de Sarabuk». Igor Smirnov, presidente da autoproclamada Transnístria, chegou a Tskhinvali a 3 de julho. Um político sul-osseta, comentando o bombardeamento de Tskhinvali durante esta visita, afirmou a 4 de julho que os georgianos eram um «povo acidental» no Cáucaso, uma vez que o seu desrespeito para com o convidado da Transnístria contradizia os costumes da região do Cáucaso. O Kavkaz Center informou a 4 de julho que os separatistas chechenos dispunham de dados de inteligência indicando que a Rússia estava a preparar uma operação militar contra a Geórgia para agosto/setembro de 2008, cujo principal objetivo seria expulsar as forças georgianas do vale de Kodori; a isto seguir-se-ia a expulsão das unidades georgianas e da população da Ossétia do Sul. A decisão de atacar a Geórgia teria sido tomada por Putin antes de Medvedev assumir a presidência, e os preparativos decorriam há vários meses. O início da guerra seria antecedido por provocações.
5 a 7 de julho A 5 de julho de 2008, o jornal digital russo Forum.msk.ru publicou um artigo intitulado "A Rússia está à beira de uma grande guerra no Cáucaso", afirmando que um conflito armado com a Geórgia nunca estivera tão iminente. O editor-chefe do periódico, Anatoly Baranov, recém-regressado do Cáucaso do Norte — onde reunira com oficiais russos destacados em Rostov do Don —, declarou que «o exército quer lutar», dado que os militares viam a guerra como a única solução para os problemas internos da Rússia. No mesmo dia, o líder abecásio Sergei Bagapsh alegou que a contra-informação militar da Abecásia detetara planos georgianos para atacar a região entre abril e maio de 2008. A noite de 5 para 6 de julho foi marcada por acusações mútuas de violação do cessar-fogo na Ossétia do Sul. Segundo as autoridades sul-ossetas, a Geórgia abriu fogo contra o posto de controlo de Ubiat às 23:20 de dia 5, utilizando armas automáticas e lança-granadas, tendo posteriormente alvejado posições perto de Tskhinvali e ferido um homem; as forças da Ossétia do Sul garantiram não ter respondido aos disparos. Em contrapartida, as autoridades georgianas relataram que as aldeias de Nuli e Kekhvi (sob controlo de Tiblíssi) foram alvo de ataques, assegurando igualmente que as suas forças não ripostaram. Paralelamente, o ministro do Interior sul-osseta, Mikhail Mindzaev, acusou a Geórgia de promover uma acumulação militar junto às fronteiras da região separatista. A 6 de julho de 2008, o Ministério do Interior da Geórgia informou a ocorrência de explosões perto das aldeias de Rukhi e Ganmukhuri, junto à fronteira com a Abecásia. No mesmo período, a deflagração de uma bomba em Gali, na Abecásia, provocou quatro mortos e seis feridos. As autoridades abecásias atribuíram o ataque ao «terrorismo de Estado» georgiano e, em retaliação, cortaram todos os canais de comunicação com a Geórgia. Adicionalmente, confiscaram os documentos de viagem dos cidadãos georgianos que tinham autorização para entrar em Gali, impedindo-os de abandonar a Abecásia. A Geórgia condenou os atentados e responsabilizou a Rússia, argumentando que as explosões serviam de pretexto para justificar a manutenção e o reforço do contingente militar russo em território georgiano. Por sua vez, o líder sul-osseta, Eduard Kokoity, imputou as «provocações» à Geórgia, declarando: «Devemos exercer sabedoria, calma e contenção, pois assim ajudaremos ao colapso mais rápido do regime de Saakashvili». Perante o agravamento da situação, o Ministério dos Negócios Estrangeiros francês emitiu um comunicado a apelar ao reatamento imediato das negociações, enquanto o Secretário-Geral do Conselho da Europa, Terry Davis, manifestou profunda preocupação, alertando que «a situação pode ficar fora de controlo». O panorama de instabilidade levou ainda o Presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, a discutir a situação da Geórgia com o homólogo russo, Dmitry Medvedev, durante a 34.a cimeira do G8. O Gruziya Online informou a 7 de julho que Bagapsh, o líder da região separatista da Abecásia, planeava atacar a Alta Abecásia. O início da operação estaria agendado para 11 e 12 de agosto, estando também prevista uma visita de Bagapsh a Moscovo para obter o consentimento final para a ofensiva. O Ministério da Defesa da Geórgia declarou a 7 de julho que as suas forças detetaram cerca de dez milicianos a tentar sabotar uma estrada de contorno sob controlo georgiano na Ossétia do Sul. Os georgianos abriram fogo contra o grupo, forçando os ossetas a retirarem-se para a aldeia mais próxima. No dia seguinte, 8 de julho de 2008, as autoridades da Ossétia do Sul informaram que quatro espiões do Ministério da Defesa da Geórgia tinham sido detidos na noite anterior perto da aldeia de Okona, no distrito de Znauri. Em contrapartida, o comandante das forças de manutenção de paz georgianas, Mamuka Kurashvili, afirmou que os quatro soldados georgianos tinham sido sequestrados em território sob controlo de Tiblíssi, perto de Kareli, fora da zona de conflito da Ossétia do Sul. Simultaneamente, a Ossétia do Sul acusou os serviços secretos georgianos do rapto de um jovem de 14 anos, residente em Tskhinvali. Perante a situação dos militares, as forças de segurança georgianas receberam ordens do Presidente Mikheil Saakashvili para organizar a libertação dos soldados. O ministro do Interior sul-osseta, Mikhail Mindzaev, descartou a libertação dos militares até que a Geórgia procedesse à devolução do menor. Mais tarde, confirmou-se que os soldados georgianos foram libertados, após a ordem de Saakashvili para a execução de uma operação policial especial de resgate.
8 e 9 de julho A 8 de julho de 2008, o enviado sul-osseta Dmitry Medoev acusou a Geórgia de se preparar para a guerra, alegando que os militares georgianos tinham retirado cerca de 300 crianças dos enclaves georgianos em Tamarasheni, Nuli, Eredvi e Kurta desde o dia 5 de julho. Medoev acrescentou: «Ainda não abrimos fogo porque recebemos ordens para isso». Nesse mesmo dia, caças militares russos sobrevoaram a Ossétia do Sul. A 9 de julho, o coronel Zurab Pochkhua, vice-comandante da Força Aérea Georgiana, afirmou que quatro aviões russos voaram durante quase 40 minutos perto de Tskhinvali; em contrapartida, a Rússia acusou a Geórgia de cometer «uma violação grave» ao fazer voar dois caças georgianos Sukhoi Su-25 sobre a região. A 10 de julho, as autoridades russas reconheceram publicamente a incursão aérea, justificando em comunicado oficial que os caças foram enviados para «arrefecer as mentes quentes em Tiblíssi». Os quatro militares georgianos detidos anteriormente já tinham sido libertados antes do sobrevoo. Esta operação russa violou a resolução de 2002 da Comissão Mista de Controlo, que exigia aprovação prévia para voos sobre as zonas de conflito. As autoridades georgianas admitiram que sabiam da libertação dos seus oficiais desde o meio-dia e que a planeada operação especial na Ossétia do Sul já tinha sido descartada por volta das 20:10, hora em que a incursão russa começou. Esta foi a primeira vez, na década de 2000, que a Rússia confessou ter violado o espaço aéreo do território georgiano. O incidente quase coincidiu com a visita agendada da secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, à Geórgia no dia seguinte. Em resposta, a Ministra dos negócios estrangeiros da Geórgia, Eka Tkeshelashvili, chamou de volta o seu embaixador na Rússia «para consultas», declarando sentir-se «ultrajado pelas políticas agressivas da Rússia». Saakashvili assinalou a proximidade do voo russo em relação a Tiblíssi, comentando: «Talvez tenha sido a forma que encontraram para dar as boas-vindas a Condoleezza Rice». O Ministério dos Negócios Estrangeiros georgiano classificou os sobrevoos como uma «agressão militar» aberta por parte da Rússia. Também a 8 de julho de 2008, Condoleezza Rice afirmou que os conflitos na Abecásia e na Ossétia do Sul seriam resolvidos através do Plano de Ação para a Adesão da Geórgia à NATO. A declaração gerou fortes protestos em Moscovo: o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergey Lavrov, respondeu, durante uma reunião com o presidente de facto abecásio Sergei Bagapsh, que a integração da Geórgia na NATO «poderia minar a resolução do conflito». À sua chegada à Geórgia, a 9 de julho, Rice atribuiu a culpa pela escalada de tensão às ações provocatórias da Rússia nos meses anteriores, defendendo que a Geórgia tinha "de ser tratada como" um país independente. A 10 de julho, em Tiblíssi, a secretária de Estado sublinhou que a Rússia precisava "de fazer parte da resolução do problema e não de contribuir para o mesmo". Numa conferência conjunta, Saakashvili sugeriu que a Geórgia e a Rússia deveriam colaborar para garantir a segurança dos Jogos Olímpicos de Inverno de Sóchi de 2014. A 9 de julho de 2008, um incidente na zona tampão entre a área controlada pela Abecásia e o vale de Kodori (sob controlo georgiano) causou ferimentos em três polícias georgianos. O Ministério do Interior da Geórgia afirmou que os observadores da ONU foram impedidos de aceder à área pelo lado abecásio. Por sua vez, as autoridades da Abecásia alegaram que dois milicianos abecásios foram feridos no Monte Achamkhara após um ataque perpetrado por dez sabotadores georgianos. De acordo com o ministério georgiano, ocorreu outro incidente perto da fronteira propriamente dita entre a Abecásia e a Geórgia, onde um posto policial georgiano foi atacado. A ministra dos Negócios Estrangeiros georgiana, Eka Tkeshelashvili, e o ministro de Estado para a Reintegração, Temur Iakobashvili, acusaram a Rússia de orquestrar provocações e de sabotar o processo de paz. O Serviço de Segurança do Estado da Abecásia, por seu turno, acusou a Geórgia de encenar o incidente no distrito de Zugdidi antes da visita de Condoleezza Rice. Segundo uma fonte do portal Gruziya Online, o incidente em Kodori tratou-se de uma ação preparatória levada a cabo por paraquedistas russos antes da tomada do vale de Kodori, os quais estariam a usar uniformes das forças abecásias como camuflagem.
10 a 12 de julho A 10 de julho de 2008, o coronel-general Sergey Makarov, comandante do Distrito Militar do Cáucaso do Norte (SKVO), afirmou que o SKVO tinha o dever de auxiliar tanto as forças de manutenção de paz como a população civil nas regiões separatistas. No dia seguinte, Dmitry Medoev, enviado presidencial da Ossétia do Sul à Rússia, assegurou que a região dispunha de «todas as forças e meios necessários para repelir» a Geórgia sem recorrer à ajuda russa, embora tenha defendido o destacamento de mais forças de manutenção de paz russas para a zona de conflito. A 11 de julho, o Ministério da Defesa da Rússia comunicou a necessidade de «aumentar a prontidão de combate» do seu contingente na Abecásia, reforçando a segurança nas instalações militares e ministrando «formação adicional» sobre as normas de uso de armas de fogo em serviço. Em Tiblíssi, Nika Rurua, vice-presidente da Comissão de Defesa e Segurança do Parlamento Georgiano, alertou que a Geórgia abateria as aeronaves militares russas caso estas voltassem a violar o seu espaço aéreo. Embora a proposta tenha sido debatida, os legisladores georgianos optaram por apelar à comunidade internacional. Em resposta à intenção da Geórgia de convocar uma reunião especial no Conselho de Segurança da ONU, fontes do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo alegaram que a Rússia iria expor os detalhes de uma alegada operação militar planeada por Tiblíssi na Ossétia do Sul para libertar os oficiais georgianos detidos. O portal *Gruziya Online* avançou que o líder abecásio Sergei Bagapsh se deslocara a Moscovo para finalizar os planos de ataque à Alta Abecásia, sustentando que a Rússia se preparava para enviar a 76.a Divisão de Assalto Aéreo de Guardas de Pskov para a Abecásia. Segundo fontes anónimas citadas pelo portal, brigadas aerotransportadas russas já se encontravam na região à revelia dos acordos estabelecidos, tendo dado entrada 45 vagões de armamento russo na semana anterior. Adicionalmente, foi reportado que as forças russas se estavam a reinstalar na Ossétia do Sul, confirmando a existência de um plano militar de Moscovo para mover uma guerra bilateral contra a Geórgia.Outro relatório do portal *abkhazeti.ru* alegou que os serviços secretos russos estariam a enviar mais de uma centena de chechenos do Batalhão Vostok (leal à GRU) para a Abecásia. O plano consistiria em simular um ataque contra as próprias forças de manutenção de paz russas para, após a ocorrência de baixas, culpar a Geórgia e desencadear uma ofensiva total para ocupar o vale de Kodori, Zugdidi e Kutaisi. Em contrapartida, o ministro dos Negócios Estrangeiros abecásio, Sergei Shamba, declarou que a visita de Bagapsh visava apenas negociar a abertura de uma delegação do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo na Abecásia. A 11 de julho de 2008, o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros georgiano, Grigol Vashadze, solicitou uma sessão urgente do Conselho de Segurança da ONU. A reunião, realizada à porta fechada a 21 de julho para analisar as violações do espaço aéreo, terminou sem a adoção de qualquer resolução. Vitaliy Churkin, representante russo na ONU, condenou o que designou como um «tendenciosismo pró-georgiano» por parte de alguns membros do Conselho. Também a 11 de julho, Aleksandr Khramchikhin escreveu no jornal Nezavisimaya Gazeta que a única oportunidade de a Geórgia vencer o conflito residia num «golpe rápido de decapitação» para neutralizar a liderança separatista, o qual exigiria surpresa total, «devendo, por isso, ser executado não durante um próximo agravamento da situação, mas, pelo contrário, quando a tensão fosse mínima». O analista sublinhou que Saakashvili estava ciente de que a Geórgia perderia definitivamente os territórios caso saísse derrotada de uma segunda guerra contra os separatistas. O antigo primeiro-ministro da Ossétia do Sul, Oleg Teziev, lamentou que a região não tivesse procedido à limpeza dos enclaves georgianos no passado, classificando-os agora como uma «dor de cabeça». Teziev acrescentou: «A Ossétia do Sul abriu um precedente na prática internacional de resolução de conflitos étnicos ao terminar a guerra sem expulsar a minoria nacional que participou no conflito do lado oposto». Afirmou ainda que o avanço georgiano na guerra anterior fora travado pela ameaça sul-osseta de detonar engenhos nucleares portáteis em Tskhinvali e em Tiblíssi. A 12 de julho de 2008, Javier Solana, Alto Representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança, condenou os sobrevoos russos e declarou que a UE acompanharia atentamente a evolução dos acontecimentos. Em Riga, a ministra dos Negócios Estrangeiros georgiana, Eka Tkeshelashvili, alertou que o envio de tropas russas adicionais para a Geórgia seria encarado como uma «agressão direta», transformando automaticamente as forças de manutenção de paz russas em forças de ocupação.
14 e 15 de julho A 14 de julho de 2008, o vice-ministro da Defesa georgiano, Batu Kutelia, afirmou que o aumento de mais de 15 por cento do exército georgiano, para um contingente de 37 000 efetivos, tinha como objetivo proteger o espaço aéreo da Geórgia e a costa do mar Negro contra a agressão russa. Também a 14 de julho de 2008, o jornal Nezavisimaya Gazeta (NG) informou ter obtido acesso a um relatório secreto apresentado numa sessão porta fechada do Comité de Segurança da Duma Estatal na primavera de 2008, o qual continha uma análise detalhada da situação na Geórgia. O documento estipulava que a Rússia dispunha de várias opções estratégicas, entre as quais «aguardar passivamente o desenrolar do processo de agravamento da situação e tomar medidas decisivas através da intervenção na fase de conflito armado». Paralelamente, o cientista político russo Sergey Markedonov assinalou que diversos jornalistas tinham já avançado datas específicas para a alegada eclosão das hostilidades entre a Rússia e a Geórgia. Em entrevista ao jornal Komsomolskaya Pravda, o chefe do Governo da Ossétia do Sul, Yury Morozov, declarou que a região dispunha de «uma aviação excelente» contra os georgianos, clarificando de seguida que se referia aos «nossos aviões, os aviões russos». No mesmo artigo, o jornalista relatou ter observado colunas de tanques e veículos de combate de infantaria posicionados junto à fronteira russo-georgiana, estimando que a marcha a partir daquele ponto até Tskhinvali exigiria apenas meio dia de viagem. A 15 de julho, um porta-voz da União da Rússia e Bielorrússia confirmou que a Abecásia e a Ossétia do Sul tinham manifestado interesse em integrar a organização. Contudo, salvaguardou que as regiões separatistas necessitariam primeiro de obter o reconhecimento internacional como Estados independentes e o estatuto de observadores antes de poderem ser admitidas como membros de pleno direito.
18 a 20 de julho A 18 de julho, o jornal Komsomolskaya Pravda noticiou que a construção do gasoduto entre Vladikavkaz e Tskhinvali estaria concluída até ao fim do ano, concluindo que a Geórgia estava a perder em definitivo o controlo sobre a região sul-osseta. Uma fonte em Sukhumi indicou ao portal *Gruziya-Online* que a investigação sobre o atentado bombista em Gagra estava praticamente concluída, tendo sido detidos quatro suspeitos na Abecásia. Três dos detidos eram de etnia abecásia e um de etnia arménia. Adicionalmente, dois dos suspeitos haviam sido combatentes na Guerra da Abecásia (1992–1993), tendo inclusive recebido condecorações das autoridades abecásias. O jornalista russo Maxim Kalashnikov defendeu por escrito que uma ofensiva militar georgiana contra a Abecásia e a Ossétia do Sul poderia resultar na perda do Cáucaso do Norte por parte da Rússia, sustentando que a única solução passaria pelo reconhecimento formal da independência das duas regiões separatistas. Kalashnikov afirmou que as fronteiras russas delineadas em 1991 «não correspondiam aos interesses de segurança e desenvolvimento do Mundo russo», instando Moscovo a iniciar a «reformatação» do espaço pós-soviético, resolvendo em primeiro lugar a «questão georgiana». O autor admitiu o envolvimento da Rússia no golpe de Estado georgiano de 1991–1992 e argumentou que, após a anexação da Abecásia e da Ossétia do Sul, a Rússia deveria apoiar a autodeterminação dos Mingrélios e dos Adjares. Alertou ainda para a emergência de ativistas ossetas pró-ocidentais que pretendiam separar a Ossétia do Norte da Federação Russa, exigindo uma reação célere de Moscovo. Segundo relatos da comunicação social, milícias abecásias atacaram um posto policial georgiano com granadas a 19 de julho de 2008, resultando na morte de um miliciano abecásio devido à explosão acidental de uma das granadas. Representantes da Abecásia negaram a autoria do ataque. Nesse mesmo dia, a imprensa georgiana avançou que um batalhão de infantaria russo tinha penetrado na zona baixa do vale de Kodori. Fontes das estruturas de segurança abecásias no distrito de Gali acrescentaram que as tropas russas no vale de Kodori, coordenadas por Emzar Kvitsiani, se preparavam para desferir um ataque contra a secção do vale sob administração georgiana. Em reação a estas informações, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Abecásia garantiu que nenhum contingente além da quota estipulada tinha cruzado a fronteira. A 20 de julho de 2008, os meios de comunicação oficiais da Ossétia do Sul encerraram o seu relatório informativo declarando: «O facto de os acontecimentos na zona de conflito georgiano-osseta continuarem a ser um dos tópicos de discussão mais interessantes, mesmo a nível internacional, é um bom sinal que nos permite acalentar a esperança de uma solução positiva para a questão da liberdade e independência da República da Ossétia do Sul num futuro próximo».
21 a 27 de julho O Ministério da Defesa da Geórgia alegou que as tropas russas tinham ocupado desfiladeiros estratégicos da cordilheira principal do Cáucaso e que se encontravam prontas para o combate. Um relatório da ONU emitido a 23 de julho de 2008, relativo ao período entre abril e julho desse ano, apontou discrepâncias na versão georgiana sobre o incidente de Khurcha, ocorrido no dia das eleições na Geórgia. O documento sublinhou, em particular, «o facto de o incidente ter sido filmado de uma forma que sugere que os acontecimentos já eram previstos». O relatório indicou ainda que os voos de reconhecimento georgianos violavam o cessar-fogo, embora o abate dessas mesmas aeronaves constituísse também uma infração ao acordo. No que respeita a um eventual reforço militar georgiano na Abecásia, a missão da ONU declarou não ter encontrado provas, mas observou que o acesso dos observadores foi vedado em certas áreas, incluindo no vale de Kvabchara. O jornal russo Trud noticiou que, caso a Geórgia atacasse Tskhinvali, a intervenção russa ocorreria muito provavelmente sob a forma de apoio aéreo e de artilharia. Oficiais russos sob anonimato foram citados a afirmar que a escala e a natureza da resposta seriam determinadas pelo poder político. A 25 de julho de 2008, Pavel Felgenhauer escreveu que a capacidade de defesa da Geórgia seria ampliada em 2009, «pelo que a atual Tiblíssi não tem interesse objetivo em iniciar uma guerra neste momento». Felgenhauer afirmou que os abecásios e os ossetas não conseguiriam combater de forma independente num previsível conflito em larga escala a curto prazo. O analista acrescentou que os militares russos «terão efetivamente de combater e sofrer baixas quase desde o primeiro dia, caso contrário as repúblicas autoproclamadas desmoronar-se-ão muito rapidamente». Nesse mesmo dia, a explosão de uma bomba causou um morto em Tskhinvali. A 27 de julho, outra deflagração vitimou mortalmente um homem no distrito de Gali, na Abecásia. Também a 27 de julho de 2008, o candidato presidencial norte-americano John McCain afirmou que Vladimir Putin continuava a governar a Rússia e que o país estava a exercer «uma pressão enorme sobre a Geórgia em várias frentes».
28 a 31 de julho O secretário do Conselho de Segurança da Ossétia do Sul, Anatoly Barankevich, afirmou ao periódico Nezavisimaya Gazeta que as manobras militares da Rússia no Cáucaso do Norte refletiam a instabilidade política e militar daquela região. Acusou ainda a Geórgia de financiar os insurgentes chechenos e de mover uma guerra não declarada contra a Federação Russa. A 28 de julho de 2008, a bandeira da Geórgia foi hasteada pelo Ministério da Defesa georgiano na elevação estratégica de Sarabuki. Mais tarde, o comando russo das Forças Mistas de Manutenção de Paz (JPKF) informou que observadores da OSCE e forças de paz tinham sido impedidos pelas autoridades sul-ossetas de aceder à aldeia de Cholibauri, situada na proximidade da zona onde a Geórgia denunciava a edificação de fortificações pela Ossétia do Sul. Milícias armadas sul-ossetas abriram fogo contra os observadores da OSCE e as forças de manutenção de paz. A imprensa georgiana noticiou que as posições em Sarabuki foram atacadas pelas forças sul-ossetas durante a noite e na madrugada de 29 de julho, sem registo de feridos. Na manhã de 29 de julho, a aldeia georgiana de Sveri foi alvo de disparos de armas ligeiras e granadas foguete por parte das forças sul-ossetas. Um representante oficial da Ossétia do Sul acusou a Geórgia de ter iniciado o tiroteio. Uma patrulha de forças de paz e observadores da OSCE deslocaram-se às imediações de Sveri para averiguar a troca de tiros, mas acabou por ser igualmente alvo de disparos por volta das 10:00. Ao final da noite do mesmo dia, as autoridades da Ossétia do Sul alegaram que, devido ao reforço das suas posições na linha de demarcação, duas aldeias sul-ossetas tinham sido bombardeadas pelas forças georgianas durante a manhã. Em contrapartida, a Geórgia relatou que os ossetas abriram fogo contra a elevação de Sarabuki por volta das 22:00. O Comité de Imprensa e Informação da Ossétia do Sul registou um ferido na sequência do alegado ataque georgiano a partir de Sarabuki. A 29 de julho de 2008, o líder sul-osseta Eduard Kokoity declarou que as forças armadas de Nagorno-Karabakh eram mais fortes do que o Exército Georgiano. Afirmou ainda que, embora o exército sul-osseta não estivesse equipado segundo os padrões da NATO, continuava a ser uma força que os georgianos deveriam levar em consideração. Nesse mesmo dia, o jornal RBK Daily noticiou um endurecimento da retórica russa face aos Estados Unidos. Uma fonte do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo ameaçou que Moscovo iria suspender as negociações em «matérias substantivas de interesse para o lado americano», acrescentando que a Rússia estava cansada de ver os EUA «ditarem como nos devemos comportar, com quem ser amigos e com quem combater». O apoio americano à integridade territorial da Geórgia e a adesão de antigos Estados soviéticos à NATO foram apontados como os motivos principais para a escalada por parte da Rússia. A 31 de julho de 2008, o ministro do Interior sul-osseta, Mikhail Mindzaev, admitiu a construção de fortificações militares na zona de conflito em violação dos acordos anteriores, justificando a medida como uma resposta a ações semelhantes por parte da Geórgia. Mindzaev acusou a Geórgia de promover uma «anexação rasteira». Vladimir Ivanov, comandante adjunto das JPKF, informou que militares sul-ossetas estavam a obstruir a missão de monitorização das JPKF e dos observadores da OSCE.
Exercícios militares Em 3 de julho, as tropas fronteiriças do Serviço Federal de Segurança da Federação Russa realizaram um exercício junto à fronteira georgiana na Ossétia do Norte, durante o qual repeliram um ataque armado ao posto fronteiriço de Nizhny Zaramag. Tropas do Ministério da Defesa e do Ministério dos Assuntos Internos da Rússia também participaram na simulação. Era a primeira primeira vez que este tipo de treino era efetuado desde a década de 1990. Em 5 de julho de 2008, a Rússia iniciou exercícios militares no Norte do Cáucaso, designados Caucasus Frontier 2008. No início de julho de 2008, a OSInform Information Agency publicou vários artigos nos quais se discutia a participação do exército russo numa futura operação de «imposição da paz» na Geórgia. Um dos artigos afirmava que os exercícios russos planeados não eram acidentais e que isso apontava para uma operação militar em território estrangeiro. Em 15 de julho, os Estados Unidos e a Rússia iniciaram dois exercícios militares paralelos no Cáucaso, embora a Rússia tenha negado que a coincidência temporal fosse intencional. O exercício russo recebeu a designação de Cáucaso 2008, e nele participaram unidades do Distrito Militar do Norte do Cáucaso, incluindo o 58.o Exército. O exercício incluía treino para apoiar as forças de manutenção da paz destacadas na Abecásia e na Ossétia do Sul. A Frota do Mar Negro e a Flotilha do Cáspio também participaram nos exercícios. O porta-voz militar russo Igor Konashenkov afirmou que o exercício mobilizaria cerca de 700 unidades de equipamento militar. Acrescentou ainda: «Tendo em conta o agravamento da situação nos conflitos georgiano-abecásio e georgiano-osseta (...), iremos também treinar a participação em operações especiais para restabelecer a paz em zonas de conflito armado.» Os paraquedistas da 76.a Divisão de Assalto Aéreo da Guarda chegaram ao Norte do Cáucaso em 16 de julho. As Tropas Aerotransportadas Russas sublinharam que os paraquedistas não tinham sido enviados para a Abecásia. Destacamentos aerotransportados russos chegaram à área próxima da passagem de Roki. Foram estabelecidos postos logísticos e médicos ao longo das rotas de deslocação. Os participantes nos exercícios contaram igualmente com apoio aéreo. A Geórgia classificou os exercícios como uma demonstração de agressão russa contra o país. O Ministério dos Negócios Estrangeiros da Geórgia declarou num comunicado: «Nenhum documento relativo à resolução dos conflitos autoriza as forças armadas russas a desenvolver qualquer tipo de atividade no território da Geórgia.» Em 18 de julho, a Passagem de Roki e a Passagem de Mamison (Mamisoni), na fronteira com a Geórgia, foram ocupadas pela 76.a Divisão de Assalto Aéreo da Guarda, de Pskov, e pela 7.a Divisão Aerotransportada da Guarda, de Novorossiysk. Segundo o Nezavisimaya Gazeta, o facto de os exercícios se estenderem por 11 regiões da Rússia constituía uma indicação de que o número de militares participantes era superior ao oficialmente anunciado. O general russo Yuri Netkachev afirmou que o número de soldados envolvidos nos exercícios russos fora «oficialmente subestimado» para evitar a atenção dos observadores internacionais. A segunda fase dos exercícios russos, apresentada como uma resposta às manobras militares conjuntas entre os Estados Unidos e a Geórgia, começou em 22 de julho. A frota russa também participou nos exercícios. Em 23 de julho, Igor Konashenkov, adjunto do comandante do Distrito Militar do Norte do Cáucaso, declarou que os exercícios atribuíram ao regimento de infantaria mecanizada da divisão de Vladikavkaz a missão de proteger a fronteira estatal na área da passagem de Roki. Acrescentou que todas as unidades da divisão tinham sido destacadas para a zona designada, substituindo o batalhão de assalto aéreo da divisão de Pskov. Durante os exercícios, foi distribuído entre os militares russos um folheto intitulado «Soldado! Conhece o teu provável inimigo!». O panfleto descrevia as Forças Armadas da Geórgia. Os exercícios russos terminaram em 2 de agosto. Contudo, após o fim das manobras, as tropas russas permaneceram junto à fronteira com a Geórgia em vez de regressarem aos seus quartéis. Mais tarde, Dale Herspring, especialista em assuntos militares russos da Kansas State University, descreveu os exercícios russos como «exatamente aquilo que executaram na Geórgia apenas algumas semanas depois [...] um ensaio geral completo». Os exercícios norte-americanos receberam a designação de Immediate Response 2008 e envolveram militares dos Estados Unidos, da Geórgia, da Ucrânia, do Azerbaijão e da Arménia. Segundo os responsáveis, os exercícios tinham sido planeados vários meses antes. As manobras decorreram na antiga base militar russa de Vaziani. Dos militares norte-americanos participantes, 127 desempenharam funções de instrutores durante os exercícios. O combate à insurgência constituiu o principal objetivo do exercício conjunto. A brigada georgiana recebeu treino para servir no Iraque. No total, participaram nos exercícios 1 630 militares, incluindo 1 000 soldados norte-americanos. As manobras terminaram em 31 de julho. Quando a invasão russa da Geórgia teve início, em agosto de 2008, as tropas norte-americanas já tinham abandonado o país.
Novos esforços de paz
Primavera de 2008 Em 5 de março de 2008, a Geórgia abandonou a Comissão Conjunta de Controlo para a Resolução do Conflito Geórgia-Ossétia do Sul e sugeriu um novo modelo de negociações que incluiria a União Europeia, a OSCE e o governo de Sanakoev. Em 28 de março de 2008, o Gabinete do Ministro de Estado da Geórgia para a Reintegração convocou uma conferência internacional intitulada «O Papel das Organizações Não Governamentais nos Processos de Reintegração na Geórgia». A conferência contou com a presença do Presidente da Geórgia, Mikheil Saakashvili. Saakashvili anunciou novas iniciativas relativas ao conflito da Abecásia, incluindo uma zona económica livre conjunta, representação abecásia no governo central, um vice-presidente abecásio, direito de veto sobre todas as decisões relacionadas com a Abecásia, autonomia sem limites definidos e várias garantias de segurança. Contudo, as iniciativas foram rejeitadas pelos separatistas abecásios. Em 17 de abril de 2008, o ministro georgiano para a Integração Euro-Atlântica, Giorgi Baramidze, declarou que, se a Abecásia permitisse o regresso dos refugiados, a Geórgia assinaria um tratado de não utilização da força. O secretário-adjunto assistente de Estado para os Assuntos Europeus e Eurasiáticos, Matthew Bryza, declarou no Central Asia-Caucasus Institute: «Ninguém deseja um desenvolvimento da situação em que soldados georgianos e russos se confrontem.» Afirmou não ter a «impressão de que a Geórgia tenha 100% razão» e acrescentou: «Os dirigentes da Geórgia também precisam de trabalhar muito mais nas propostas de paz para que os abecásios deixem de sentir receios.» Bryza afirmou ainda que os formatos de paz existentes para as regiões separatistas da Geórgia já não funcionavam e que era necessário revitalizar o "processo dos Amigos» (referindo-se ao mecanismo diplomático informal criado sob os auspícios das Nações Unidas para apoiar os esforços de mediação do Secretário-Geral da ONU). O ministro dos Negócios Estrangeiros da Geórgia, Davit Bakradze, declarou que a promessa da NATO de considerar a eventual adesão da Geórgia em dezembro de 2008 contribuía para a agressividade russa: «esta é a janela de oportunidade: destruir a Geórgia para impedir que o MAP seja possível em dezembro». Em 24 de abril de 2008, o presidente georgiano Saakashvili anunciou que a Geórgia discutiria com os seus aliados a revisão do formato das forças de manutenção da paz e um maior envolvimento de outros países no processo de paz, porque «a presença do contingente [de manutenção da paz] russo [na Abecásia e na Ossétia do Sul], bem como as ações recentes [da Rússia], constituem um fator de risco na zona de conflito». Os senadores norte-americanos Joe Biden e Richard Lugar escreveram que a tentativa da NATO de apaziguar a Rússia ao negar o MAP à Geórgia e à Ucrânia tinha falhado, porque poucos dias depois Moscovo começou a estabelecer laços estreitos com a Abecásia e a Ossétia do Sul para sabotar o plano de paz de Saakashvili para a Abecásia. Em 30 de abril de 2008, a deputada ao Parlamento Europeu Marie Anne Isler Béguin afirmou que as forças de manutenção da paz russas eram ineficazes e que o formato da missão deveria ser alterado. A Geórgia solicitou à União Europeia que considerasse o destacamento de forças europeias de manutenção da paz para a zona do conflito georgiano-abecásio. O presidente georgiano Saakashvili e o Presidente da Ucrânia Viktor Iushtchenko emitiram uma declaração conjunta criticando as recentes ações russas. A Ucrânia anunciou a sua disponibilidade para participar numa operação de manutenção da paz na Geórgia e aprovou o novo plano de paz de Saakashvili para a Abecásia. Os membros da Assembleia Popular da Abecásia aprovaram uma declaração suspendendo as negociações de paz com os Estados Unidos, o Reino Unido, a França e a Alemanha, alegando que o «Grupo de Amigos do Secretário-Geral» favorecia a Geórgia. No início de maio, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Abecásia, Serguei Shamba, declarou que a Abecásia estava desapontada com o Ocidente e apoiava a posição do parlamento. Em 1 de maio de 2008, a secretária de Estado dos Estados Unidos Condoleezza Rice afirmou que o aumento do contingente russo de manutenção da paz na Abecásia era desnecessário. Em 3 de maio de 2008, o ministro dos Negócios Estrangeiros russo Sergey Lavrov declarou que os «planos para integrar a Geórgia na NATO» eram responsáveis pela «incapacidade» da Geórgia para negociar com a Rússia sobre a Abecásia. Manifestou a esperança de que a Geórgia e «as capitais que estão a atrair a Geórgia para a Aliança do Atlântico Norte» não criassem «problemas artificiais nesta região muito sensível». Em 1 de maio de 2008, o ministro das Finanças da Geórgia, Nika Gilauri, anunciou que 150 milhões de dólares provenientes da venda de Eurobonds emitidas pela Geórgia seriam transferidos para o Fundo das Gerações Futuras, destinado a financiar o desenvolvimento das antigas regiões separatistas após o restabelecimento da integridade territorial da Geórgia. No início de maio, os lados georgiano e abcázio discutiam a redução das tensões. No entanto, cada parte tinha uma visão diferente: os georgianos centravam-se no recente plano de paz proposto por Saakashvili, enquanto os abecásios exigiam a retirada georgiana do desfiladeiro de Kodori e a abolição das sanções impostas pela Geórgia. Em 10 de maio de 2008, Matthew Bryza e o embaixador dos Estados Unidos na Geórgia, John F. Tefft, reuniram-se com a liderança abecásia. Segundo Bryza, os voos de reconhecimento realizados por veículos aéreos não tripulados georgianos sobre a Abecásia eram justificados. Em 12 de maio de 2008, os ministros dos Negócios Estrangeiros da Lituânia, Letónia, Polónia, Suécia e Eslovénia visitaram a Geórgia. Saakashvili discursou ao lado dos ministros e apresentou um folheto russo de promoção dos Jogos Olímpicos de Sóchi como prova das intenções russas em relação à Abecásia. Saakashvili afirmou que a escalada promovida pela Rússia era «um prelúdio para um ato de anexação e um ato de ocupação». Declarou ainda que, quando a Geórgia foi ocupada em 1921, durante a Invasão soviética da Geórgia, a Rússia atacou posteriormente outros países europeus; expressou também a esperança de que «a Europa nunca mais cometa o mesmo erro». Em 12 de maio de 2008, o Presidente da Ucrânia Viktor Yushchenko e o Presidente da Lituânia Valdas Adamkus emitiram uma declaração conjunta em apoio da integridade territorial dos Estados, incluindo a Geórgia. Também em 12 de maio de 2008, o representante permanente da Geórgia nas Nações Unidas, Irakli Alasania, visitou Sukhumi para discutir o plano de paz com o líder abecásio Sergei Bagapsh. O plano incluía propostas relativas ao compromisso georgiano de não recorrer à força e ao compromisso abecásio de permitir o regresso dos refugiados georgianos. O ministro dos Negócios Estrangeiros da Abecásia, Sergei Shamba, comentou que a Abecásia não se opunha totalmente ao plano. Bagapsh planeava deslocar-se a Moscovo em 19 de maio para obter aprovação para o plano de paz abecásio-georgiano. Em 15 de maio de 2008, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou uma resolução que sublinhava o direito de regresso de todos os refugiados e deslocados internos à Abecásia, bem como os seus direitos de propriedade. A Rússia votou contra a resolução patrocinada pela Geórgia. O Ministério dos Negócios Estrangeiros russo declarou que a proposta georgiana constituía «um passo contraproducente». Em 16 de maio de 2008, o ministro georgiano para a Reintegração, Temur Iakobashvili, chegou a Moscovo e propôs a realização de uma conferência internacional sobre a resolução dos conflitos. O ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergey Lavrov, afirmou que o envolvimento dos Estados Unidos e da União Europeia demonstrava que a Geórgia não pretendia uma solução real para os conflitos. Em 23 de maio de 2008, Temur Iakobashvili declarou, após a sua visita a Moscovo para discutir o plano de paz de Saakashvili, que a Geórgia pretendia rever os formatos de manutenção da paz mas não porque estivessem "a expulsar os russos. Acrescentou que «a Rússia deve ser uma das partes na resolução do conflito e não deter um direito exclusivo às operações de manutenção da paz». Segundo afirmou, as tropas russas adicionais destacadas para a Abecásia não eram forças de manutenção da paz, mas sim «formações armadas ilegais». Fontes da administração do presidente russo declararam que as forças de manutenção da paz russas não abandonariam a Abecásia mesmo que a Geórgia exigisse a sua retirada; em vez disso, as tropas russas permaneceriam como forças aliadas ao abrigo de um futuro acordo militar com a Abecásia. No final de maio de 2008, Vladimir Putin afirmou que o plano de paz de Saakashvili para a Abecásia era aceitável. Putin declarou que o plano era «correto», mas necessitava da aprovação de Sukhumi. Acrescentou que a Rússia tinha solicitado às autoridades abecásias que permitissem o regresso de 55 mil refugiados georgianos.
Verão de 2008 Em 5 de junho de 2008, o Parlamento Europeu aprovou uma resolução que condenava o destacamento de forças russas para a Abecásia e reafirmava o apoio à integridade territorial da Geórgia. A resolução apelava à retirada dessas forças adicionais por parte da Rússia e afirmava que a estrutura de manutenção da paz deveria ser alterada, uma vez que a Rússia já não era um interveniente imparcial. Foi igualmente recomendada «uma participação europeia mais profunda nestes conflitos congelados, de modo a fazer avançar os processos de paz». As autoridades russas não comentaram a resolução. Em 7 de junho de 2008, o presidente da Abecásia, Sergei Bagapsh, declarou, após se reunir com o alto representante da União Europeia para a Política Externa e de Segurança Comum, Javier Solana, que a Abecásia nunca aceitaria a substituição das forças russas de manutenção da paz porque «não existe alternativa», e que insistiria na continuação da sua presença no território. Solana afirmou que a Rússia desempenhava um papel significativo e que não haveria resolução do conflito sem a sua participação. Nesse mesmo dia terminou uma visita de dois dias à Abecásia realizada por quinze embaixadores da União Europeia. Giorgi Baramidze, vice-primeiro-ministro da Geórgia e ministro para a Integração Europeia e Euro-Atlântica, declarou: «A Geórgia está pronta para assinar um acordo de cessar-fogo com a Abecásia se este for garantido pela União Europeia.» Baramidze afirmou que a perda de Gagra, Sukhumi e da maior parte da Abecásia pela Geórgia se devia à ausência de um garante eficaz dos acordos anteriores. Acrescentou ainda: «Queremos pôr em prática o nosso plano de paz.» As autoridades pró-russas da Ossétia do Sul anunciaram ter expulsado doze embaixadores europeus da região devido ao encontro que estes mantiveram, em 22 de junho, com o governo pró-georgiano da Ossétia do Sul. Em 23 de junho de 2008, o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros da Geórgia, Grigol Vashadze, visitou Moscovo com o objetivo de organizar um encontro entre os presidentes da Geórgia e da Rússia. O presidente do Parlamento georgiano, Davit Bakradze, declarou que o presidente georgiano pretendia discutir a situação na Abecásia. Bakradze manifestou esperança numa melhoria da situação. Vashadze reuniu-se com o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Grigory Karasin, para discutir a situação na Abecásia. Em 27 de junho de 2008, o jornal russo Kommersant noticiou que a Geórgia tinha proposto à Rússia a divisão da Abecásia em esferas de influência georgiana e russa. Os refugiados georgianos regressariam aos distritos de Gali e Ochamchire, e a linha de contacto seria deslocada do rio Enguri para o rio Kodori, mais a norte. Em contrapartida, a Rússia beneficiaria do abandono, pela Geórgia, da sua candidatura à adesão à NATO. Quando o líder abecásio Sergei Bagapsh chegou a Moscovo, em 26 de junho, reuniu-se igualmente com Grigory Karasin para discutir esse plano. As autoridades abecásiasias rejeitaram a proposta de divisão da Abecásia. O responsável abecásio Ruslan Kishmaria sugeriu que a Abecásia poderia, por sua vez, exigir a restituição de Kutaisi, a sua capital histórica durante a Idade Média. O ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergey Lavrov, negou que Moscovo estivesse a considerar um plano para dividir a Abecásia. Contudo, uma fonte anónima do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo confirmou a existência desse plano. Posteriormente, o ministério classificou a notícia como uma «fuga deliberada de informação». O Ministério dos Negócios Estrangeiros da Geórgia negou igualmente a notícia relativa à criação de esferas de influência na Abecásia. Em 25 de junho de 2008, Saakashvili reuniu-se com altos responsáveis alemães em Berlim para discutir um novo plano de paz. A Chanceler da Alemanha Angela Merkel encontrou-se com Saakashvili e declarou que a Geórgia viria a tornar-se membro da NATO, mas que essa adesão dependia da resolução do conflito na Abecásia. Acrescentou que «a missão russa de manutenção da paz deve continuar até serem encontradas novas alternativas através das negociações» e que a Alemanha também participaria no processo de paz. Saakashvili planeava participar numa cimeira dos líderes dos partidos membros da União Democrática International em Paris. A embaixadora alemã na Geórgia, Patricia Flor, planeava reunir-se com Sergei Bagapsh e outros altos responsáveis em Sukhumi no dia 27 de junho. Em 28 de junho de 2008, a Assembleia Parlamentar da OSCE apoiou a integridade territorial da Geórgia. O presidente da assembleia, Göran Lennmarker, declarou: «Queremos encontrar um compromisso e uma solução pacífica para esta questão.» Em 30 de junho, um representante norte-americano afirmou que a Assembleia Parlamentar da OSCE instara a Rússia a respeitar a soberania da Geórgia, abstendo-se de manter relações com os governos dos territórios separatistas. Em 30 de junho de 2008, o Grupo de Amigos do Secretário-Geral das Nações Unidas debateu o conflito na Abecásia em Berlim. Foi anunciado um plano de paz em três fases pelo ministro dos Negócios Estrangeiros da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, segundo o qual o reforço da confiança mútua e o repatriamento de cerca de 250 000 refugiados para a Abecásia seriam seguidos, numa primeira fase, pela reconstrução das infraestruturas e, posteriormente, pela resolução do conflito. O ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergey Lavrov, juntamente com a secretária de Estado norte-americana Condoleezza Rice, manifestou apoio ao plano alemão. O presidente georgiano Saakashvili também o aceitou. Em 7 de julho de 2008, o Departamento de Estado dos Estados Unidos apelou ao governo central da Geórgia e às autoridades de facto da Abecásia para retomarem as negociações. O Departamento de Estado apelou igualmente à Rússia para pôr termo às ações «provocatórias» e propôs o destacamento de uma força policial internacional na Abecásia. No entanto, o líder abecásio Sergei Bagapsh rejeitou a possibilidade de retirada das forças russas de manutenção da paz. O porta-voz do Departamento de Estado declarou ainda que Condoleezza Rice visitaria a Geórgia para apoiar uma solução pacífica para os conflitos da Abecásia e da Ossétia do Sul. A visita de embaixadores da OSCE e do ministro dos Negócios Estrangeiros da Dinamarca à Geórgia teve início em 7 de julho e prolongou-se até 9 de julho, incluindo também visitas aos territórios separatistas. Em 8 de julho de 2008, o presidente do Parlamento da Geórgia, David Bakradze, declarou ter levantado junto do enviado das Nações Unidas Bertrand Ramcharan a questão da alteração do formato da missão de manutenção da paz na Abecásia. Acrescentou que, caso esse formato não fosse alterado, a Geórgia tomaria uma decisão unilateral relativamente às forças russas de manutenção da paz. Ramcharan chegou à Abecásia em 11 de julho para negociar a retoma das conversações entre abecásios e georgianos. Em 9 de julho de 2008, diplomatas europeus apresentaram dois critérios para um eventual envolvimento da União Europeia numa operação de manutenção da paz na Abecásia: a garantia de segurança para o pessoal estrangeiro e o consentimento mútuo das partes em conflito. Em 11 de julho de 2008, o Parlamento da Geórgia aprovou uma resolução que instava a comunidade internacional a apoiar as propostas georgianas para a paz. A resolução afirmava: «Caso contrário, o lado georgiano será forçado a adotar, num futuro próximo, medidas jurídicas apropriadas para a deslegitimação e a retirada imediata das forças armadas da Federação Russa das zonas de conflito.» As autoridades ocidentais já tinham anteriormente aconselhado a Geórgia a suspender as exigências de retirada das forças russas de manutenção da paz. Em 14 de julho de 2008, Sergei Bagapsh reuniu-se com o enviado especial do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Alemanha para a Europa de Leste, a Ásia Central e o Cáucaso, Hans-Dieter Lucas. O plano de paz foi discutido durante o encontro. No mesmo dia, o representante especial da União Europeia para o Sul do Cáucaso, Peter Semneby, reuniu-se com Sergei Bagapsh em Sukhumi. Bagapsh declarou que tinha analisado um projeto de plano para a resolução do conflito georgiano-abecásio elaborado pelo Grupo de Amigos do Secretário-Geral das Nações Unidas, mas considerava-o inaceitável para a Abecásia na sua forma atual. Sublinhou que a principal condição para a retoma do diálogo com a Geórgia era «a retirada de todas as unidades armadas do vale de Kodori e a assinatura de um acordo sobre a não utilização da força». Declarou igualmente que não tencionava discutir o estatuto da Abecásia com ninguém, uma vez que esta era «um Estado independente e democrático». Peter Semneby reuniu-se também com o Primeiro-Ministro da Abecásia Alexander Ankvab e com o ministro dos Negócios Estrangeiros Sergei Shamba. Sergei Shamba afirmou que era necessária «mais preparação». Em 14 de julho, o Departamento de Estado dos Estados Unidos declarou, através de um comunicado, estar «profundamente preocupado» com o reconhecimento por parte da Rússia de que uma aeronave militar russa tinha sobrevoado a Ossétia do Sul, uma vez que «tais ações levantam dúvidas sobre o papel da Rússia como força de manutenção da paz e facilitadora das negociações, além de ameaçarem a estabilidade de toda a região».Nesse mesmo dia realizou-se uma sessão especial do Conselho Permanente da OSCE. Foi salientada a necessidade de retomar as negociações de paz entre as autoridades georgianas e sul-ossetas. Em 15 de julho de 2008, a NATO declarou estar preocupada com os voos militares russos. O papel da Rússia enquanto força de manutenção da paz e mediadora foi posto em causa. O ministro dos Negócios Estrangeiros da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, reuniu-se com o Secretário-Geral das Nações Unidas Ban Ki-moon. Em seguida, Steinmeier manteve uma conversa telefónica com o ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergey Lavrov, que afirmou que a Rússia pretendia que tanto a Geórgia como a Abecásia «assumissem compromissos de não recorrer à força», bem como a retirada das forças georgianas do desfiladeiro de Kodori. O presidente georgiano Saakashvili declarou ao The Times: «A situação é precária e aquilo que eles [a Rússia] estão a fazer é ultrajante. Infelizmente, não enfrentam oposição por parte dos europeus nem de outros intervenientes.» Questionado sobre a possibilidade de guerra, Saakashvili respondeu: «O problema é que todos os dias acordamos com alguma surpresa e, por vezes, quando penso que a situação não pode piorar, ela acaba por piorar.» Ronald Asmus escreveu que a Rússia estava a tentar «provocar Tbilissi a tomar medidas que pudessem conduzir a uma nova intervenção militar russa». Escreveu ainda: «A curto prazo, precisamos de impedir que um conflito comece neste verão.» Asmus sugeriu também que a Rússia viraria depois a sua atenção para a Crimeia. Em 16 de julho de 2008, Alexander Lomaia, secretário do Conselho de Segurança Nacional da Geórgia, afirmou que o novo plano alemão ainda necessitava de ser «aperfeiçoado», apesar de conter «elementos positivos». Lomaia acrescentou também que o regresso dos deslocados internos não poderia começar enquanto a força de manutenção da paz russa não fosse retirada. David Bakradze declarou que, caso um plano alemão para resolver o conflito não obtivesse amplo apoio, a Geórgia seria forçada a «influenciar unilateralmente a presença das forças armadas na Abecásia». Ativistas russos dos direitos humanos começaram a recolher assinaturas contra a escalada das tensões entre a Rússia e a Geórgia. Na sua opinião, o conflito estava prestes a transformar-se numa guerra entre os dois países. Em 17 de julho de 2008, o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Geórgia declarou, através de um comunicado, que a França apoiava um envolvimento ativo da União Europeia no processo de resolução pacífica dos conflitos na Geórgia. Em 17 de julho de 2008, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergey Lavrov, declarou que o repatriamento dos refugiados para a Abecásia era «totalmente irrealista nesta fase», acrescentando que «é primeiro necessário melhorar a situação e restaurar a confiança». O ministro dos Negócios Estrangeiros da Alemanha, Steinmeier, reuniu-se em Tbilissi com a sua homóloga georgiana, Eka Tkeshelashvili. Steinmeier afirmou em Tbilissi que, devido aos múltiplos incidentes recentes, a comunidade internacional sentia uma «crescente preocupação» e que já não existiam «conflitos congelados». O ministro dos Negócios Estrangeiros da Abecásia, Sergei Shamba, declarou que a Geórgia teria primeiro de retirar as suas tropas do desfiladeiro de Kodori antes da Abecásia iniciar negociações. Na noite do mesmo dia, Saakashvili declarou numa conferência de imprensa que Tbilissi não tinha quaisquer planos para recorrer à força com o objetivo de restabelecer o controlo sobre a Abecásia. Saakashvili classificou a declaração de Lavrov sobre os refugiados como «vergonhosa» e afirmou que impedir o regresso dos refugiados constituiria uma «decisão desumana e bárbara». Steinmeier reuniu-se com o presidente georgiano Mikheil Saakashvili em Batumi. Numa conferência de imprensa conjunta, Saakashvili afirmou que os conflitos do século XX deveriam ser resolvidos através de «métodos europeus modernos». Steinmeier declarou que a Alemanha considerava a Abecásia uma parte inalienável da Geórgia e que pretendia uma «resolução pacífica baseada na integridade territorial» do país. Fontes da delegação alemã classificaram as conversações com Saakashvili como «difíceis». Em 18 de julho, o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Geórgia afirmou que a Rússia procurava legalizar os resultados da limpeza étnica patrocinada pela própria Rússia. A 18 de julho, Steinmeier reuniu-se com o líder abecásio Sergei Bagapsh em Gali. Após o encontro com Steinmeier, Bagapsh afirmou que a Abecásia continuaria a não considerar a proposta de paz alemã e que pretendia apresentar o seu próprio plano. O presidente do Parlamento Georgiano, Davit Bakradze, classificou a recusa abecásia como "apenas um jogo político" e acrescentou que a posição russa seria "decisiva". No mesmo dia, Frank-Walter Steinmeier avistou-se com o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergey Lavrov. Lavrov sugeriu um "roteiro" internacional para a Abecásia, contudo, opôs-se ao plano alemão visto que este previa o regresso dos refugiados georgianos à Abecásia logo no início da resolução do conflito. O presidente russo, Dmitry Medvedev, também recebeu Steinmeier. Medvedev insistiu que a Geórgia deveria retirar as suas forças do vale de Kodori, caso contrário não haveria paz entre a Geórgia e a Abecásia. De acordo com uma fonte do jornal russo Kommersant, Lavrov admitiu a Steinmeier que a retirada georgiana do vale de Kodori era pouco provável no futuro próximo. O diplomata americano Matthew Bryza afirmou que a rejeição russa e abecásia do plano de paz alemão era alarmante. Em 21 de julho de 2008, a revista russa Newsweek publicou um artigo no qual uma fonte com ligações próximas ao Kremlin afirmava que os problemas territoriais da Geórgia poderiam ser resolvidos se um governo pró-russo chegasse ao poder no país. Segundo a mesma fonte, a Rússia via as tensões com a Geórgia como parte de um confronto entre a Rússia e os Estados Unidos. Fontes indicaram à Newsweek que o sobrevoo russo sobre a Ossétia do Sul no início de julho teria sido autorizado pelo presidente russo Dmitry Medvedev, após consulta com Vladimir Putin. Havia indícios de que a Geórgia poderia obter o estatuto de membro associado da NATO em dezembro de 2008, e a Rússia entendia que seria obrigada a resolver rapidamente a questão georgiana. Uma fonte do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo afirmou que Irakli Alasania terá negociado uma reunião entre os presidentes georgiano e abecásio em maio de 2008; no entanto, os interessados terão organizado explosões na Abecásia, o que levou ao cancelamento do encontro. Em 21 de julho de 2008, a agência REGNUM News Agency noticiou que mediadores ocidentais propunham a substituição das tropas georgianas no desfiladeiro de Kodori por uma força policial internacional, da qual a Rússia seria excluída. Matthew Bryza afirmou que, à época, não havia necessidade de enviar uma força internacional para a Abecásia e que os Estados Unidos estavam a trabalhar no estabelecimento de um diálogo direto entre as partes georgiana e abecásia. O ministro dos Negócios Estrangeiros da Abecásia, Sergei Shamba, afirmou que a substituição das tropas georgianas por uma força internacional foi uma sua iniciativa. A 22 de julho de 2008, os serviços de informações georgianos apresentaram ao Ocidente provas de uma acumulação militar russa na Abecásia. No próprio dia, o governo georgiano declarou que «o plano alemão, na sua forma atual, não aborda a causa imediata da recente e perigosa escalada nas zonas de conflito: o papel e as ações da Rússia, um interveniente central na degradação da segurança na Geórgia». Complementando a visão crítica sobre Moscovo, Carl Bildt, ministro dos Negócios Estrangeiros da Suécia, afirmou que a decisão russa de 16 de abril representava o culminar de um processo de anexação da Abecásia. Em 23 de julho, Daniel Fried, secretário de Estado adjunto dos Estados Unidos, sublinhou que a integridade territorial da Geórgia e o regresso dos refugiados à Abecásia eram princípios fundamentais, prometendo que a questão da retirada das forças de manutenção da paz russas seria discutida. O ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergey Lavrov, transmitiu a Condoleezza Rice que o regresso dos refugiados à Abecásia deveria ser adiado para uma fase posterior do processo de paz. O analista Vladimir Socor contestou o plano de paz alemão a 24 de julho, sob a alegação de que a Alemanha favorecia a perspetiva de Moscovo face às questões de integridade territorial da Geórgia. A 23 de julho de 2008, após analisar o relatório do ministro alemão Frank-Walter Steinmeier sobre a Abecásia, a reunião de ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia reconheceu formalmente a Rússia como parte direta no conflito na Geórgia. A 24 de julho de 2008, Matthew Bryza afirmou que a Rússia «tem tomado medidas que são profundamente provocatórias e que levaram algumas pessoas na Geórgia a calcular que a sua única via de progressão é através da escalada, e esse é um caminho que não pode ter sucesso». Bryza chegou à Geórgia a 25 de julho e planeava visitar Sucumi juntamente com Patricia Flor, embaixadora da Alemanha na Geórgia. A 25 de julho de 2008, os separatistas da Ossétia do Sul rejeitaram a proposta do presidente em exercício da OSCE, Alexander Stubb, para realizar um encontro entre a Geórgia e a Ossétia do Sul em Helsínquia. Os separatistas já se tinham recusado anteriormente a participar nas conversações em Bruxelas, organizadas pela UE para o dia 22 de julho. De acordo com o Kommersant, a decisão sul-osseta de recusar a participação nas conversações de Bruxelas foi coordenada com Moscovo. A 25 de julho, os separatistas abecásios reuniram-se com Matthew Bryza. Bryza declarou em Sucumi que a Rússia era «mais ou menos» a favor do plano alemão aprovado pelo Grupo de Amigos do Secretário-Geral da ONU. A falta de progresso num acordo de paz alarmou Bryza. Oficiais abecásios sugeriram que o projeto alemão era irrelevante para a Abecásia, independentemente do país que o apoiasse. Bryza tentou persuadir as autoridades abecásias a aceitarem unanimemente as conversações em Berlim na semana seguinte, mas os representantes da Abecásia recusaram. Mais tarde nesse mesmo dia, o presidente abecásio, Sergei Bagapsh, deu a entender que os abecásios poderiam reunir-se com o Grupo de Amigos em Berlim. O ministro dos Negócios Estrangeiros da Abecásia, Sergei Shamba, também afirmou que os abecásios «em princípio» não se opunham às conversações em Berlim. Contudo, segundo Shamba, a Abecásia não retomaria as negociações diretas com o governo central da Geórgia. O embaixador russo na ONU, Vitaly Churkin, afirmou que a Rússia se opunha a uma reunião urgente do Grupo de Amigos do Secretário-Geral da ONU na Geórgia. De acordo com a Jamestown Foundation, o envolvimento ocidental podia «ajudar a afastar o processo dos formatos controlados pela Rússia. É por isso que Moscovo incentivou Sucumi a frustrar as consultas propostas pela Alemanha». Um editorial russo opinou que as iniciativas ocidentais contradiziam os interesses da Rússia e que a instalação de bases americanas na Abecásia poderia levar à perda do Cáucaso do Norte por parte da Rússia. A 26 de julho, Matthew Bryza, secretário de Estado adjunto dos EUA, deixou Sucumi e chegou a Tiblíssi. Bryza afirmou que os representantes georgianos e os oficiais separatistas abecásios deveriam iniciar conversações diretas e sem condições prévias. O secretário do Conselho de Segurança da Geórgia, Alexander Lomaia, declarou após o encontro com Bryza que os Estados Unidos tinham proposto um novo plano de paz que combinava elementos dos planos de Saakashvili, Steinmeier e Rice. Bryza desmentiu os relatos dos meios de comunicação de que teria exigido a retirada georgiana do vale de Kodori. A 28 de julho de 2008, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, manifestou a sua preocupação com a escalada de tensão na Abecásia, que poderia ter «consequências imprevisíveis para um processo de paz frágil», bem como com a crescente hostilidade entre a Rússia e a Geórgia. A 29 de julho de 2008, Bagapsh afirmou que a Abecásia nunca aceitaria o destacamento de uma força policial internacional no seu território. A 30 de julho de 2008, um porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros alemão declarou que estavam a ser envidados esforços pela Alemanha para organizar um encontro entre representantes georgianos e abecásios. Os separatistas abecásios tinham rejeitado anteriormente participar nas conversações em Berlim, agendadas para os dias 30 e 31 de julho. A 31 de julho de 2008, o presidente abecásio, Sergei Bagapsh, adiantou que haveria uma reunião separada entre a Abecásia e o Grupo de Amigos do Secretário-Geral da ONU sobre a Geórgia (constituído por Reino Unido, Alemanha, Rússia, EUA e França). Bagapsh referiu que a Geórgia realizaria um encontro à parte com o mesmo Grupo, acrescentando: «A reunião estava inicialmente prevista para 28 e 29 de julho. Contudo, essas datas não eram convenientes para nós. Acordámos o período de 15 a 20 de agosto para a realização do encontro».
Agosto de 2008: Guerra
Os ataques sul-ossetas contra as posições georgianas provocaram vários incidentes na Ossétia do Sul no início de agosto de 2008. A crise eclodiu a 7 de agosto de 2008, quando várias aldeias georgianas foram bombardeadas poucas horas após a declaração de um cessar-fogo por parte do presidente georgiano Mikheil Saakashvili. Em resposta, o exército georgiano lançou uma operação militar contra os separatistas sul-ossetas. A 26 de agosto de 2008, a Rússia reconheceu formalmente a Abecásia e a Ossétia do Sul como repúblicas independentes. Os Estados Unidos, o Reino Unido, a França, a Alemanha, a Itália e a Suécia condenaram e rejeitaram esta decisão. Em reação ao reconhecimento russo, o governo georgiano anunciou o corte total de todas as relações diplomáticas com a Federação Russa.
Ver também Conflito gelado Relações entre Geórgia e Rússia Relações entre a União Europeia e a Geórgia Relações entre os Estados Unidos e a Geórgia Relações entre Estados Unidos e Rússia Relações entre Organização do Tratado do Atlântico Norte e Rússia
Referências
External links (em russo) Абхазия – 86-й регион Российской Федерации? /Le Monde, Франция; Alt link World Condemns Russian Actions in Abkhazia, Georgia Ondrej Ditrych, IDENTITIES, INTERESTS AND THE RESOLUTION OF THE ABKHAZ CONFLICT, Summer 2008 (em russo) Российско-германская "Антанта" /RIA Novosti, 26 July 2008 (em russo) Orli Be Dorsi, «Грузинские клещи Косовского капкана», 21 September 2008 Crisis of Peace Formats and Escalation of Events (em russo) Chronology of the South Ossetian crisis in July 2008 (em russo) Chronology of the Georgian-Ossetian conflict in December 2005-July 2008, Caucasus Knot

