Jogador revela vício em apostas e critica excesso de propagandas

Michel Henrique, que já foi duas vezes artilheiro do Campeonato Gaúcho, desabafa sobre ludopatia. Crédito: Estadão/ Mariana Cury

Confira o resumo que a LE.IA, a IA do Estadão, fez pra você

O governo federal planeja proibir cassinos online, gerando reação de clubes da Série A do Brasileirão. Quinze times assinaram manifesto contra a medida, alegando que a proibição afetaria o futebol brasileiro. Michel Fauze Mattar, da EY, diz que a saída das bets não seria o fim do futebol, mas impactaria a liquidez dos clubes. O presidente Lula criticou o manifesto, destacando conquistas passadas sem bets. A ANRESF acompanha o debate, enquanto a CBF ainda não se posicionou oficialmente.

A intenção do governo federal de proibir o funcionamento de cassinos online e bets despertou uma forte reação de clubes do País. Quinze dos 20 times da Série A do Brasileirão assinaram um manifesto contrário à medida, dizendo que um cenário de proibição seria o “fim do futebol brasileiro”.

Um dos textos em análise pelo Palácio do Planalto exclui do veto justamente as empresas de apostas esportivas e patrocínios de clubes. O número de equipes com esses aportes na elite do futebol brasileiro já é menor este ano em relação a 2025, mas os clubes defendem que o setor é relevante tanto para as agremiações quanto para competições, naming rights de estádios e publicidade na TV e placas na beira do campo.

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Apenas quatro clubes pertencentes à Série A na última temporada tiveram bets como fonte direta de mais de 10% das suas receitas em 2025: Corinthians (17,3%), Flamengo (12,71%), Sport (12,64%) e Juventude (10,49%).

A Esportes da Sorte prevê R$ 150 milhões anuais ao Corinthians, o que representou 17,3% das receitas totais do último exercício (R$ 863,68 milhões). Antes, desde dezembro de 2022, a equipe já teve patrocínio de outras duas casas de apostas, incluindo a Vai de Bet, que acabou na mira do Ministério Público.

Flamengo e Palmeiras ostentam patrocínios de bets com contratos firmados em 2025. Foto: Cesar Greco/Palmeiras

O São Paulo, com a Superbet, recebeu R$ 80 milhões em 2025, 7,48% do R$ 1,07 bilhão faturado no ano. O clube tricolor tem acordo com bets desde 2019. A atual marca está na camisa desde dezembro de 2023 e, em 2026, subiu o aporte para R$ 95 milhões.

O Santos assinou com a Novibet por R$ 35 milhões para 2026, mas em 2025 ainda era patrocinado pela 7k, recebendo R$ 51 milhões. A quantia foi 8% do faturamento de R$ 573,6 milhões.

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Mais saudável financeiramente, o Palmeiras firmou o primeiro contrato com uma bet, a Sportingbet, em janeiro de 2025, por R$ 100 milhões anuais. Isso correspondeu a 5,6% das receitas totais (R$ 1,73 bilhão).

Para o diretor de indústria do esporte da EY no Brasil, Michel Fauze Mattar, a saída das bets não seria “o fim do futebol brasileiro”. “Mas poderia gerar efeitos relevantes no curto prazo. Muitos clubes incorporaram essas receitas às suas estruturas de custo, especialmente em folha salarial e contratações, e uma redução abrupta pode pressionar a liquidez e a sustentabilidade de quem se tornou mais dependente desses recursos”, aponta.

Entretanto, ele não prevê uma ruptura na dinâmica. Ainda que o veto impacte a capacidade das operadoras de seguir investindo no futebol, Mattar ressalva que o mais provável é uma “acomodação do mercado”.

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“Após um ciclo de forte crescimento, é natural haver consolidação dos operadores e maior seletividade nos investimentos, o que pode pressionar os valores dos patrocínios, mas não necessariamente caracteriza o estouro de uma bolha”, explica.
O economista Cesar Grafietti, especialista em finanças do futebol, projeta que, se a MP de fato não obrigar o fim dos patrocínios e das apostas esportivas, as empresas tendem a permanecer. “Os investimentos já foram feitos. Não acredito que as empresas deixem o mercado se não forem obrigadas. Inclusive porque é um mercado com volume”, diz.
Grafietti, porém, identifica falta de visão na gestão dos clubes para construir fontes de receita que não dependam de um único setor. “A visão do dirigente é de curto prazo, para resolver o atraso de ontem e elenco de hoje”, comenta. “Poderíamos discutir uma série de outros aspectos sociais, mas o debate é outro: como tratar da segurança jurídica, cujo impacto no futebol é enorme?”, questiona.
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É o que corrobora o sócio-diretor da Wolff Sports e especialista em marketing, Fábio Wolff. “O futebol precisa continuar diversificando suas receitas, mas isso é um processo que acontece no médio e longo prazo e não substitui imediatamente uma fonte relevante de investimento”, opina.
“É importante diferenciar uma saída pontual de uma ruptura generalizada. O que preocupa, neste momento, é a possibilidade de uma mudança regulatória abrupta gerar um movimento simultâneo de redução de investimentos, antes que outros setores tenham condições de preencher esse espaço”, pondera.
Para o advogado especialista em direito desportivo, Luciano Andrade Pinheiro, a tendência de redução e estagnação em aportes das bets independe do veto. “Depois de conhecido o tamanho do mercado e o potencial da atividade, o normal é a retração nos valores. Talvez tenha havido uma expectativa superestimada por parte dos clubes”, diz Pinheiro, que é sócio do Corrêa da Veiga Advogados.
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Em comício em Guarulhos, na noite desta sexta-feira, o presidente Lula criticou o manifesto dos clubes. “O São Paulo foi campeão do mundo três vezes sem bets. Santos, duas. Grêmio, Flamengo e Internacional também. E o meu Corinthians foi duas vezes. Lamentavelmente, só o Palmeiras não foi campeão do mundo. Dizer que acabar com as bets vai acabar com o futebol é balela”, disse.
Crescimento em receitas veio acompanhada de 46% de aumento no endividamento
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Os 20 clubes do Brasileirão de 2025 somaram no ano passado uma receita de R$ 14,9 bilhões, um aumento de 33% em relação ao ano anterior, segundo levantamento da EY. No acumulado entre 2021 e 2025, o crescimento chega a 73%.
Entretanto, o relatório também aponta aumento no endividamento. Entre 2021 e 2025, o dado subiu 46%, batendo R$ 14,3 bilhões. A evolução não foi constante. Entre 2022 e 2023, o endividamento teve registro de queda de 3%. Entretanto, nos anos seguintes, o número voltou a ter altas, inclusive superiores àquela observada entre 2021 e 2022 (12%).
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O sócio de Tecnologia, Mídia & Entretenimento e Telecomunicações (TMT) da EY para a América Latina, José Ronaldo Rocha, avalia que a inflação em gastos se deu principalmente na busca por reforços, que não foi acompanhada pelo faturamento.
“Na busca por maior competitividade esportiva, observamos um aumento nos investimentos em direitos federativos de atletas e nas folhas salariais. Esse movimento inflaciona os custos operacionais do futebol. Como as fontes tradicionais de receitas [direitos de TV, patrocínios, bilheteria] possuem limites de expansão a curto prazo, muitos clubes recorrem a linhas de crédito para financiar esse descompasso no fluxo de caixa”, diz Rocha.
Minoria da Série A não acompanha manifesto dos clubes
Athletico-PR, Bahia, Coritiba, Internacional e Remo, entre os times da elite, não endossaram a manifestação de alguma forma. Desses, apenas os paraenses contam com uma bet como patrocinadora máster – a Vai de Bet.
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O Remo, porém, disse ao Estadão que não foi procurado para participar da ação. Foi o que também respondeu o Coritiba. O Athletico-PR falou que a direção trata sobre o assunto, mas ainda não tem um posicionamento. O Bahia não explicou por que evitou participar do manifesto.
O Internacional afirmou que “acompanha as discussões sobre o mercado de apostas no Brasil e reconhece a necessidade de enfrentar os impactos sociais associados à atividade”. Por outro lado, o clube também manifestou “preocupação com os efeitos de eventuais mudanças sobre o atual modelo de financiamento da indústria do futebol” e reafirmou um “compromisso de contribuir para o aprimoramento e o desenvolvimento sustentável do futebol brasileiro”.
Na noite desta sexta-feira, a Federação Gaúcha de Futebol (FGF) enfim aderiu ao movimento. Na publicação, o Internacional aparece entre os clubes que endossam o movimento.
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Mirassol e Red Bull Bragantino não fizeram posts próprios, mas assinam a publicação da Federação Paulista de Futebol. As federações do Rio de Janeiro e da Bahia também se manifestaram. O post da entidade baiana, contudo, não tem assinatura do Bahia.
Entre os clubes da Série A que publicaram o manifesto, somente o Grêmio não tem patrocínio de uma casa de apostas. Os gremistas tiveram um acordo com uma bet, em conjunto com o Internacional, mas a dupla rescindiu no fim de 2025 após atrasos nos pagamentos por parte da empresa.
Ao todo, empresas de apostas patrocinam a cota máster em uniformes de 13 equipes na Série A, cinco a menos que no ano passado. Em 2025, 19 dos 20 times tinham acordos com bets – um deles sem ser máster.
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Os dois principais torneios da CBF, o Brasileirão e a Copa do Brasil, também têm os naming rights vendidos a uma companhia do setor. A confederação trata sobre o tema internamente, ainda sem se posicionar.
Responsável pelo fair-play financeiro no País, a Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (ANRESF) acompanha as discussões sem envolvimento. Há um entendimento de que a agência deve ter papel técnico e que esse assunto, político, cabe apenas à CBF.
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