🧸 Mais brinquedos significam mais brincadeira?

Uma frase com mais de um século desafia a prateleira lotada do quarto das crianças. ⬇️

A criança que parece só se divertir no tapete da sala está, na verdade, trabalhando duro. A ideia vem da educadora italiana Maria Montessori, que há mais de um século defende que a atividade livre dos pequenos é um trabalho sério, capaz de construir a pessoa adulta. Agora, um experimento com 36 crianças acrescenta uma reviravolta: brinquedo em excesso pode atrapalhar justamente essa tarefa.

O que Maria Montessori quis dizer com brincar é trabalho?

Ela quis dizer que a atividade da criança tem propósito, mesmo quando parece apenas diversão. Para a pedagoga, cada gesto de explorar, repetir e concentrar-se organiza a mente em formação, como o ofício organiza a vida do adulto. Em textos dirigidos aos pais, Montessori afirmou que boa parte do que se chama de brincadeira é, na prática, trabalho.

A formulação exata que circula em cartazes e redes sociais é uma síntese popular. A própria educadora costumava preferir a palavra trabalho e chegou a criticar o faz de conta com objetos de mentirinha. Mesmo assim, a essência permanece: a criança aprende ao agir, não ao assistir.

Montessori e a ciência: ter muitos brinquedos faz mal? - Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital)

Por que brinquedo demais pode atrapalhar a brincadeira?

Porque a abundância de opções dispersa a atenção, e a criança não chega a explorar nenhum objeto a fundo. Pesquisadores da Universidade de Toledo, nos Estados Unidos, testaram essa hipótese com 36 crianças de 18 a 30 meses. Cada uma participou de duas sessões individuais, uma com 4 brinquedos e outra com 16.

A equipe de Alexia Metz teve Carly Dauch como autora principal, e o trabalho saiu na revista Infant Behavior and Development. Com menos brinquedos, as crianças brincaram o dobro do tempo e inventaram mais jeitos de usar cada objeto.

Os resultados cabem em uma comparação direta. As duas condições do experimento mostram o contraste com clareza.

📊 4 brinquedos x 16 brinquedos: o que mudou na brincadeira

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Com 4 brinquedos

Brincadeiras mais longas e maior variedade de usos para cada objeto.

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Com 16 brinquedos

Mais trocas de um objeto para outro e exploração mais rasa.

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Quem participou

36 crianças de 18 a 30 meses, em sessões individuais supervisionadas.

Fonte: Universidade de Toledo (EUA), estudo de Dauch, Imwalle, Ocasio e Metz publicado em Infant Behavior and Development.

Como o método Montessori ajuda a escolher brinquedos?

O método Montessori ajuda ao priorizar poucos objetos, simples e ao alcance da criança, uma lógica que conversa com o achado da Universidade de Toledo. Quatro ajustes práticos levam essa ideia para a rotina da família.

- Deixe poucos brinquedos à mostra e guarde o resto, trocando de tempos em tempos.

- Prefira materiais simples, como blocos, potes, tecidos e utensílios seguros da cozinha.

- Use prateleiras baixas, como nas salas Montessori, para a criança escolher sozinha.

- Evite interromper a concentração, mesmo por motivos pequenos.

Como saber se há brinquedo demais em casa?

Um bom indício é a criança trocar de brinquedo a cada poucos minutos, sem se envolver com nenhum. Outros sinais ajudam a reconhecer o mesmo movimento no dia a dia.

- A brincadeira dura pouco e salta de objeto em objeto.

- Muitos brinquedos ficam esquecidos no fundo de caixas e cestos.

- A criança reclama de tédio, apesar da pilha de opções.

Segundo Alexia Metz, ao pular de brinquedo em brinquedo a criança não tem tempo de descobrir o que cada um oferece. Para Carly Dauch, os dados sustentam uma brincadeira mais profunda e rica com menos objetos.

Um cuidado de leitura importa aqui. O experimento ocorreu em laboratório, com sessões curtas e crianças pequenas, e não define um número ideal de brinquedos. Publicado na Infant Behavior and Development, o artigo sugere que reduzir a oferta pode favorecer foco e criatividade.

O que a brincadeira livre ensina aos pais hoje?

Maria Montessori já via na concentração infantil um trabalho valioso, e a pesquisa atual indica que menos opções podem render brincadeiras mais profundas. O melhor presente talvez seja espaço, tempo e poucos objetos que convidem a criança a inventar.

Que tal separar hoje cinco brinquedos, guardar o resto e observar o que seu filho faz com eles? Depois conta nos comentários o que você percebeu.