Em um atol remoto do Oceano Índico, pertencente às Seychelles, vive a maior população de tartarugas-gigantes do mundo. Durante quase três décadas, o número mais citado para ela foi 100 mil animais, uma estimativa de 1999.
Um estudo publicado em 4 de setembro de 2026 na revista científica Ecology and Evolution, e divulgado no início de outubro, chegou a cerca de 183 mil tartarugas adultas e subadultas em Aldabra.
Os próprios autores avisam: isso não significa que a população quase dobrou. A nova estimativa usa um método que corrige limitações das contagens anteriores.
O que o número realmente significa
É uma estimativa
O cálculo considera animais que podem ter passado despercebidos.
Tem um recorte
O resultado se aplica principalmente a adultos e subadultos.
Não prova duplicação
Métodos diferentes impedem comparar diretamente o total com a estimativa antiga.
Por que ninguém saiu contando uma a uma
Aldabra é um atol coralino de quatro ilhas que cercam uma lagoa, com cerca de 155 quilômetros quadrados de terra e altitude média de 8 metros, segundo a Seychelles Islands Foundation, fundação que administra o local e participou do estudo.
É reserva natural estrita desde 1981 e Patrimônio Mundial da UNESCO desde 1982. O isolamento limita a presença humana, e parte do terreno tem vegetação densa e rocha coralina irregular, o que dificulta localizar os animais.
Contar todos os animais num lugar assim é difícil. Por isso, entre 2018 e 2022, pesquisadores da fundação e da Universidade de Exeter, no Reino Unido, organizaram o monitoramento em 18 percursos fixos pelas ilhas, registrando as tartarugas avistadas e sua distância da linha percorrida.
A análise principal usou os dados da estação chuvosa e excluiu o percurso de Polymnie, onde não havia tartarugas.
Distância e vegetação mudam a chance de avistar uma tartaruga. Cena conceitual de observação, sem escala e sem reproduzir os percursos reais. Imagem gerada por inteligência artificial / Olhar Digital.
Como se estima o que não foi visto
A técnica se chama amostragem de distância, e a lógica é simples. O método leva em conta que a chance de detectar uma tartaruga varia conforme sua distância da linha percorrida. Quanto mais longe e quanto mais fechado o mato, menor a chance de enxergar um animal.
Medindo como essa chance cai com a distância e com o tipo de vegetação, um modelo estatístico calcula quantas tartarugas provavelmente estavam ali sem ser notadas. É como estimar quantas pessoas há numa praça lotada contando com cuidado um trecho e levando em conta quem fica escondido atrás de árvores e barracas.
O resultado foi uma população relativamente estável entre 2018 e 2021, com média de cerca de 183 mil animais adultos e subadultos. A estimativa se aplica principalmente a adultos e subadultos: os juvenis costumam se refugiar em vegetação densa e ficam praticamente indisponíveis para detecção.
A temporada de 2022 foi deixada de fora da média: o esforço de campo foi bem menor e concentrado em áreas de alta densidade, o que inflaria o número.
É aqui que está a ressalva central. As estimativas antigas, como as 100 mil de 1999, não corrigiam explicitamente os animais que ficaram sem ser vistos. Comparar os dois números como se fossem a mesma medida é comparar réguas diferentes. Os autores dizem apenas que os dados sugerem um possível aumento desde as contagens anteriores, não um salto.
E ninguém “descobriu” 180 mil tartarugas: a população já era conhecida; o que há de novo é uma estimativa mais rigorosa dela.
Uma recuperação que vem de longe
No século 19, depois de décadas de captura por navegantes, restavam menos de mil tartarugas em Aldabra. A proteção do atol, a erradicação das cabras em 2012 e o isolamento permitiram a recuperação. Aldabra abriga a maior população de tartarugas-gigantes em vida livre do mundo. As ameaças não acabaram: gatos e ratos introduzidos comem ovos e filhotes, e os pesquisadores apontam secas mais longas e a elevação do nível do mar como riscos para um atol tão baixo.
Leia também: como tartarugas marinhas encontram a região onde nasceram.


