Política / Eleições 2026

Para Paulo Vasconcelos, as decisões judiciais que afetaram o debate presidencial da TV Globo foram o principal fator da reta final da campanha nacional, impulsionando a direita no país

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O marqueteiro Paulo Vasconcelos — Foto: Manu Antunes/Divulgação
Marqueteiro da campanha de Douglas Ruas (PL) ao governo do Rio junto com o sócio Guillermo Raffo, o mineiro Paulo Vasconcelos afirma que o primeiro lugar do candidato nas urnas no último domingo, superando Eduardo Paes (PSD), não se explica apenas pela força da dobradinha com o presidenciável Flávio Bolsonaro (PL). Para o publicitário, as decisões judiciais que afetaram o debate presidencial da TV Globo foram o principal fator da reta final da campanha nacional e impulsionaram a direita no país.
O resultado de Ruas se deve a uma campanha bem feita ou à força do bolsonarismo?
A figura do marqueteiro foi muito glamourizada ao longo da redemocratização, e qualquer eleição é uma força de circunstâncias. É um projeto político, não só de comunicação. Ter feito uma boa comunicação é parte importante da história, mas não é tudo. Também não é possível, no entanto, dizer que Douglas só ganhou por causa do “22”.
Paes teve apoio de quase todos os prefeitos da Baixada, mas não venceu em nenhuma dessas cidades. Não é um sinal de que a dobradinha ‘22’ se sobrepôs?
O eleitor, com as redes, é empoderado hoje, tem canais próprios de informação e uma escolha menos refém desse voto encabrestado. Claro que a estratégia do Eduardo de buscar ser conhecido fora da capital é corretíssima, mas a maneira como chegou lá é um problema da comunicação.
Paes buscou associar o tempo todo Ruas ao ex-governador Cláudio Castro, de quem foi secretário. Não funcionou ou de alguma forma atingiu Ruas?
Não é só de padrinho que a política vive. Em 2022, Castro ganhou a eleição sem colocar Bolsonaro na TV. Agora, houve a apresentação de uma figura jovem, dinâmica. A sacada estratégica do Guillermo, diretor de criação do projeto, de colocar Douglas em movimento, correndo, pedalando, com vivacidade, fez com que o eleitor prestasse mais atenção ao que viria pela frente do que no que ficou para trás. Foi um erro (de Paes) achar que Castro seria uma bigorna. Uma coisa é entender que o ex-governador sofria desgastes, outra era querer colocá-lo como essa bigorna. Ele não foi.
E por que não colou?
O eleitor enxergava do outro lado as mesmas coisas. Existia no entorno do Eduardo uma série de políticos de destaque que participaram com muito mais brilho do governo Castro. Com todo respeito ao Douglas, ele era uma figura de menos destaque, um baixo clero do governo.
O eleitor soube das investigações contra Ruas e não se importou? Ou nem soube?
Existe uma máxima nas eleições: se esse cara tinha problemas, por que só apareceram na campanha? Douglas correu livre por meses, e só em julho se abre uma investigação sob sigilo que depois vem a público horas antes do debate da Globo. É algo que sofre de baixíssima credibilidade, apesar de usar instrumentos sérios, como o Ministério Público.
Paulo Vasconcelos com o sócio Guillermo Raffo — Foto: Divulgação
Se houver segundo turno, o histórico empresarial e político dele vai despertar mais interesse. Vislumbra uma perda de votos?
Não acredito em segundo turno. Independentemente de desejar que isso se encerre agora, seria uma mancha complicada. Mas, considerando a possibilidade, há um candidato a presidente que lidera e é aliado de Douglas, e um candidato a presidente que não foi celebrado pela campanha adversária. Há uma conexão real de que, se você tem o Rio com o governador do mesmo partido do presidente, isso pode ser uma força na reta final.
Na capital, Paes teve 900 mil votos a mais que Alexandre Ramagem na eleição municipal, e agora só 410 mil a mais que Ruas. Parece que há um eleitor que gosta dele, mas que no domingo preferiu o voto casado com Flávio.
É possível, mas o que a narrativa da campanha ofereceu foi que existe um Rio da novela, lindo de morrer, badalado, e um Rio real, das franjas, que é um Rio feio, mal cuidado. Essa imagem é real, não é só narrativa. Eduardo tinha um desgaste que detectamos, o que é natural para um político com mais de 30 anos de estrada.
O senhor fez campanhas vencedoras de pessoas que estavam na cadeira e conseguiram reeleição, como Castro em 2022 e Fuad Noman em BH em 2024. O que explica o fracasso da reeleição de Mateus Simões (PSD) em Minas, cuja candidatura também construiu?
Pela primeira vez, tivemos em Minas muitos candidatos com alguma visibilidade. Alexandre Kalil (PDT) era ex-prefeito, Flávio Roscoe (PL) tinha o “22” do bolsonarismo, Patrus(PT) era ex-prefeito e petista, e Cleitinho (Republicanos), fenômeno das redes sociais, estava liderando desde a primeira hora. Faltou a Mateus um posicionamento político ideológico, porque o candidato à Presidência dele tinha que ser o (Romeu) Zema (Novo). Correto e sério que é, foi leal mesmo com Zema tendo 1%.
Na eleição nacional, o que explica a dianteira de Flávio?
Lula começou com uma campanha muito tensa, dura, de críticas. E Flávio, considerando a modelagem do bolsonarismo, foi muito mais leve que o pai. Isso fez com que Flávio ficasse um candidato palatável, que passou sensação de frescor. A narrativa unânime era de que não estava preparado, mas fez campanha propositiva. Já Lula, com os ataques, escondeu seu preparo.
O que o cancelamento do debate da Globo representou para a eleição?
A canetada da ministra Estela Aranha foi a “Zambelli” da eleição (referência à ex-deputada bolsonarista Carla Zambelli, que apontou uma arma para um opositor na véspera do 2º turno). O debate da Globo mexe profundamente com as campanhas. Era a hora de ir para a final do campeonato. Foi algo muito primário. Em seguida, vem a história de incluir o Renan Santos.
De que forma o caso Master chegou à cabeça do eleitor?
A eleição tinha dois preditores, Master e STF. O Master foi um preditor em maio, junho, mas o STF puxou o caso para dentro, e o resto das coisas ficou mais insignificante, já que o mais importante acontecia no próprio STF. A narrativa da direita contra o Judiciário era aquela brasa no fim da churrasqueira. Quando chega à reta final e a Justiça muda uma regra do jogo (debate), é como se alguém colocasse um ventilador. Acendeu de novo.
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