Ninguém podia imaginar em 476 d.C. que a queda do Império Romano iria resultar em mil anos de escuridão. A Europa foi lançada nas trevas, fracionada em mais de 65 mil feudos em castelos murados, em condições inóspitas de saúde, sem segurança nas estradas, com os servos e os senhores analfabetos, a leitura restrita aos Monges encastelados na hermética língua do Latim, sem o amanhecer e o pôr do sol. Somente trabalho, desterro e religião.Aristóteles errou quando disse que “o homem é um animal racional”. Todos passaram a se dizer plenos da razão, e deu no que deu. Seria melhor, quem sabe, ter dito que o homem é um animal que em certas circunstâncias raciona um pouco com a lógica, talvez não tanto quanto um “boto”, mas que se expressa melhor do que um “cão”, aqui em uma metáfora do absurdo.Noah Harari, em “Sapiens”, diz que o homem é um animal completamente irracional, um acidente biológico do acaso, e que deve ser extinguir em cerca de mais um século, ou mais.Na teia da economia política, a sociedade se desfaz. Comprimidos em sua renda, as classes médias, refratárias a políticas sociais e desgostosos com os sistemas representativos, dão suporte ao irracionalismo de extrema direita, na criação das autocracias modernas, onde poucos ganham e tudo se desfaz. Hoje, 3.300 famílias no mundo detêm em patrimônio o equivalente a 13% do PIB do planeta, no acirramento da espiral do conflito das decisões políticas e sociais. A história não se repete em fatos, mas sim em conteúdo, no que se pode chamar hoje de populismo, nazismo, ou fascismo, seja o nome a este fenômeno que se possa dar.A combinação do desespero pelo lucro com a crise ecológica na diminuição dos recursos naturais e fatídica. Não sabem as elites que que elas sim dependem de sociedades numerosas e economicamente organizadas para a reprodução futura de seus próprios bens? O Doomsday Clock, do “Bulletin of the Atomic Scientists”, criado em 1947 por cientistas que trabalharam no Projeto Manhattan na Universidade de Chicago, está hoje, figurativamente, a 85 segundos da meia noite, a pior marca de todos os tempos, na estimativa teórica de maior possibilidade de extinção do homem por guerra atômica, a curto prazo, do que pelo seu desastre ecológico, mais ao futuro poente.Talvez cheguemos ao panorama literariamente descrito no filme “A máquina do tempo” com Rod Taylor, 1960, de H.G. Wells dirigido por George Pal, em um futuro sombrio para a humanidade. Ou talvez cheguemos a outro cenário de nossa vasta literatura e de nossa arte do cinema, que tanto nos cativa. Bem mais do que mil anos, em mil milênios de milênios, no ocaso do porvir.Que Deus tenha piedade de nós!Ricardo Guedes é Ph.D. pela Universidade de Chicago










